
Segredo de Amor
Digitalizao: Nina
Reviso: Bruna



Ele estava disposto a desvendar os mistrios que rondavam aquela mulher!

Connor Callahan queria entender por que Allie se transformava em um bloco de gelo toda vez que precisava pegar Jane, a sobrinha de apenas seis meses, no colo. Ele sentia que a bela mulher escondia um grande segredo, um ainda mais devastador do que a tempestade que os mantinha presos dentro daquela cabana isolada.
A combinao de fora e vulnerabilidade que havia em Allie tocava o inquieto corao de Connor. Ele queria ajud-la, queria vencer a couraa com que se protegia! Mas foi apenas aps salv-la de um trgico acidente que comeou a suspeitar qual era o seu terrvel segredo: de que a pequena Jane no fosse sobrinha de Allie, e sim sua filha!









Copyright  2000 by Lilian Darcy
Originalmente publicado em 2000 pela Silhouette Books, diviso da Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reproduo total ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edio  publicada atravs de contrato com a
Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canad.
Silhouette, Silhouette Desire e colofo so marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V.
Todos os personagens desta obra so fictcios.
Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas ter sido mera coincidncia.
Ttulo original: Raising Baby Jane
Traduo: Natrcia Silva Editora e Publisher: Janice Florido
Editor: Fernanda Gama Chefe de Arte: Ana Suely S. Dobn Paginador: Nair Fernandes da Silva
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 - 10Q andar CEP: 05424-010 - So Paulo - Brasil
Copyright para a lngua portuguesa: 2001 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Fotocomposio: Editora Nova Cultural Ltda. Impresso e acabamento:
DONNELLEY COCHRANE GRFICA E EDITORA BRASIL LTDA. DIVISO CRCULO - FONE (55 11) 4191-4633



CAPTULO I

Ainda no sei o que me deu para ter concordado com isso...  comentou Allie.
Karen Pirelli, sua irm, que se encontrava ao volante da minivan nada disse. Tinha os ombros encurvados e a testa franzida. Os sons que fazia com a boca, pelo visto, eram preces.
Depois do breve degelo de janeiro, aps as vrias tempestades de neve que assolaram a regio, viajar por aquela estrada sinuosa e escorregadia era assustador. Mas pelo visto, ela no estaria em melhores condies, nem mesmo se aquele fosse um dia claro de vero.
 No vamos nos estressar... no devemos estar longe  murmurou Karen, perscrutando o caminho adiante.  Connor disse que...
Ela interrompeu o que dizia, quando o carro comeou a derrapar. Pisou no freio, a pior coisa a se fazer em uma situao como aquela. Allie poderia ter dito aquilo, embora soubesse que, se estivesse ao volante, teria entrado em pnico e feito a mesmo coisa.
A minivan de repente parecia rodar sobre patins. Deslizou graciosamente para um lado, depois para o outro, antes de lentamente parar, quase que de lado,  cerca de um metro do lenol de gelo cobrindo o lago.
 Devo-lhe mais esta, minha irm  disse Karen, nervosamente.
Allie balanou a cabea e pigarreou, para se desfazer da sbita rouquido na voz.
	Sabe que no me deve nada, Karen...
	Eu no devia ter insistido tanto para que viesse comigo, sabendo o quanto seria difcil para voc.  Ela ento acrescentou rapidamente:  Sei que no  dada a esse tipo de aventura, e agora aqui estamos atoladas na neve.
Karen suspirou.
	Mas no vamos nos desesperar. Sei que a casa fica aqui perto, e Connor est atento. Quando perceber que estamos demorando, na certa vir nos procurar.
	Assim espero... Essa casa, onde nos hospedaremos...  muito rstica? O que foi que ele disse?
	Nada.
Sem ter o que fazer, permaneceram sentadas dentro do carro, observando com curiosidade o lago congelado. E alm dele, a distncia, a ilha. Uma espessa camada de gelo se acumulava sobre a paisagem.
Karen apoiou os braos no volante e gemeu baixinho, com ar desolado.
 O que h? Voc no est bem?  Allie quis saber.
Karen respirou fundo antes de responder:
	Eu pretendia contar a caminho daqui, mas voc estava dormindo... Tenho novidades. Eu... eu estou grvida, Allie.
	Oh, Karen, meus parabns!
Karen sorriu, o alvio era evidente nela. Allie percebeu que sua irm no estivera muito confiante, sobre como ela receberia a notcia.
 John e eu no poderamos estar mais felizes, embora s vezes me assuste um pouco.
Elas pararam de falar e olharam para o beb de seis meses preso  cadeirinha no banco traseiro. Era uma linda garotinha.
	Voc ter dois bebs... Os dois tero quase que a mesma idade.
	Apenas treze meses de diferena.
	Jane no se lembrar...  Allie comeou a dizer.
	...de como era antes de ter tido um irmo, ou uma irm.  Karen terminou por ela.  Seja como for, essa gravidez veio em boa hora. John e eu sonhamos em ter uma grande famlia. Houve uma poca em que pensamos que no seria possvel. Quero que saiba que nada do que estamos fazendo ser um problema para mim... Seja o que for que voc decidir sobre o futuro, mesmo se resolver...
	Eu sei disso, Karen, desde o incio.
	O nico problema  que me sinto muito cansada, justamente agora. Meu nvel de energia est muito baixo. Eu devia ter ido com John nessa viagem, mesmo sendo a negcios. Pelo menos descansaria um pouco. Mas a chance de fazer a capa desse livro era tentadora demais para resistir. Os direitos para o filme j foram vendidos. Nancy Sherlock  uma enormidade nesses dias...

	E pelo visto, ela possui um temperamento semelhante.
	Ela de fato ...  Karen comeou a concordar, ento parou e colocou a mo sobre a boca, tentando conter a forte nusea.
	Vamos sair desse carro. Um pouco de ar puro lhe far bem.
	No vou poder abrir a porta. Tem uma parede de neve acumulada contra a lateral da minivan.
	Mas voc no poder sair pelo meu lado, no em suas condies, ainda mais com esse cmbio no meio para atrapalhar.
Allie rapidamente colocou o chapu na cabea e calou as luvas forradas com pele. Aprontou-se para sair. O frio l fora era terrvel. Contornou o veculo e parou junto a porta do motorista.
 D para aguentar mais um pouco? Vou tentar retirar a neve da porta. Se eu tivesse uma p, seria bem mais fcil.
Karen respirou fundo para afastar a nusea. Cruzou os braos sobre o volante a apoiou o rosto neles.
Allie usava as mos para afastar a neve e desbloquear a porta, no se importando em molhar as luvas. Seria mais demorado do que ela antecipara. A neve acumulada era como uma grande colcha macia sobre a van, que parecia ter decidido se agasalhar para passar a noite.
 Posso ajudar?  disse uma voz profunda e mscula.
Allie levantou os olhos, assustada e sem flego, ao avistar aquele que oferecera ajuda, ou melhor, avistar o rosto msculo e expressivo, meio escondido sob a aba do chapu. O homem possua os olhos mais intensamente azuis que ela j vira.
E havia algo nele que de imediato a desequilibrou.
Literalmente. Cambaleou ligeiramente e no se sentiu firme ao se endireitar.
Karen continuava com a cabea deitada sobre o volante da minivan.
	Connor?  perguntou ela, ao ouvir sua voz.
	Sim...  Ele apoiou-se na porta da van e examinou-a atravs do vidro aberto pela metade.
	Presumo que vocs no pretendiam estacionar aqui, to perto do lago?
	No mesmo.
	Voc no est passando bem?
	Acertou outra vez... Connor, quero que voc conhea minha irm... Allie, este  Connor Callahan, meu vizinho. Desculpe a informalidade.  Karen fez silncio antes de recomear a respirar fundo.
	Prazer em conhec-la, Allie  disse ele, com um sorriso que parecia designado para faz-la reagir. E funcionou.  Suas luvas esto molhadas. Pretendia tirar toda essa neve daqui com as mos?
Ela riu.
 Eu no sabia que no era  prova de gua.
Sem mais uma palavra, apenas um balanar de cabea, Connor Callahan comeou a afastar a neve da porta, com o auxlio da p que trouxera, e sem o menor esforo. Cantarolava enquanto trabalhava.
	Voc costuma fazer isso? Digo, retirar a neve do caminho?  perguntou Allie, aps um momento.
	Sim, caso contrrio ningum consegue passar e chegar na casa. Desculpe eu no ter feito isso antes de vocs chegarem. Esperava estar aqui mais cedo, mas houve um imprevisto e me atrasei.
	Isso acontece...
Allie retirou as luvas molhadas e deixou-as sobre o teto da minivan. Colocou as mos sob os braos para aquec-las.
Connor parou de trabalhar por um instante e endireitou o corpo enquanto a estudava pensativamente.
A irm de Karen era do tipo mignon... e mais morena do que ela. Mechas dos cabelos castanho-escuros escapavam-lhe do chapu, alcanando-lhe a altura dos ombros.
No dava para ver muito de seu rosto. Ela usava o chapu enterrado na cabea e a aba escondia seus olhos. Tudo o que dava para ver era a boca sedutora e as mas do rosto altas e avermelhadas pelo frio.
Connor era rpido em formar uma primeira impresso a respeito de algum, e a primeira impresso que ele teve de Allie foi excelente. Teve um pressentimento de que o favor que prestava  sua gentil vizinha e  sua linda irm poderia se transformar em algo bastante interessante.
Allie agora saltitava, tentando manter os ps aquecidos. Esperava que eles no estivessem to molhados como suas luvas, dentro daquele par de botas delicado, mais apropriado para as ruas da cidade.
	Sua irm no me disse muito a seu respeito  disse ele, com um sorriso.  Mas tenho a impresso de que voc no curte lugares ermos como este.
	No mesmo... Sou mais do tipo que aprecia ficar em casa, perto da lareira acesa, lendo um bom livro ou ouvindo boa msica. Como  o lugar onde nos hospedaremos?
Allie comeava a ficar intranquila. Suas botas estavam midas e suas mos latejavam e s o que faltava agora era Connor dizer que a cabana para onde eles se dirigiam no possua luz eltrica, apenas um fogo  lenha fumacento no meio de uma cozinha decrpita.
	Voc quer saber se no lugar que alugaram do meu irmo haver uma lareira acesa em cada quarto?  perguntou Connor.
	A princpio, sim.
 Se faz questo delas, eu darei um jeito...
Ele possua maxilares angulosos e fortes e o corpo de um atleta profissional. Allie concluiu que o homem, pelo visto, podia "dar um jeito" em qualquer coisa que desejasse. E da melhor maneira possvel. Quando ele retornou ao trabalho, Allie precisou lutar contra o impulso de pedir-lhe que continuasse a cantar, porque o ritmo da cano engrenava to bem com os movimentos de seu corpo que era agradvel de se ver e ouvir.
 Est bem, Karen, voc pode sair. A porta est livre.  avisou ele.  Vou precisar colocar esse carro em lugar mais seguro.
 Obrigada  respondeu Karen, endireitando-se.
Quando ela saiu de dentro do veculo, o ar fresco lhe trouxe a cor de volta s faces.
Connor acomodou-se atrs do volante e manobrou a minivan, antes de parar ao lado do seu Range Rover.
	Melhorou?  perguntou Allie  irm.
	Sim, j passou.
	Contou a ele sobre o beb?
 Ainda no. Comeamos a contar  famlia. Voc  a primeira a saber depois de nossos pais. Mas talvez eu deva contar-lhe, para o caso de eu passar mal como agora. A capa do tal livro est mexendo comigo. Jamais fiz qualquer trabalho para um autor to famoso. Nancy Sherlock j rejeitou duas verses feitas por outros artistas, e agora esto pensando em mim como uma medida desesperada. Ela viu um capa que fiz para Gloria Blackmore e adorou.
 Se ela gostou do seu trabalho, no h porque se preocupar!  Allie tentou tranquiliz-la.
Karen fez uma careta.
	Mas dizem que essa autora  famosa por mudar de idia em cima da hora.
	Confie em sua intuio e v em frente. Tudo se resolver quando estiver atrs da sua cmera.
	O que me faz lembrar de uma coisa... Eu gostaria de tirar algumas fotografias do lago, e agora, antes que a luz mude. Neste exato momento, h um grande "feeling" nele... to limpo e to refrescante... E antes que Jane acorde.
Allie assentiu, ignorando o n que se formava em sua garganta toda vez que ouvia Karen mencionar a pequena Jane naquele tom carregado de ternura.
Connor retornara para junto delas e ouvira o que Karen dissera a respeito de querer tirar fotografias do lago.
 Tendo um daqueles ataques de inspirao?
Karen assentiu, a caminho da porta traseira da minivan, pretendendo pegar seu equipamento.
 Verifiquei o gelo  acrescentou ele.  No tem perigo. Est feito pedra. Parece um pouco frgil, mas  apenas na superfcie. V em frente. Nossa top model cuidar de sua pequena sobrinha, se ela acordar.
Connor sorriu casualmente para Allie. Ento ficou srio, diante de sua sisudez. Ela soube ento que no tinha conseguido disfarar a inquietao. De repente, percebeu o quanto estaria vulnervel naquele fim de semana, precisando pass-lo com Karen, com Jane e com um estranho observando todos os seus movimentos.
 Ei  continuou Connor.  Desculpe se a aborreci chamando-a de top model. Pense em tudo isso como sendo uma brincadeira.  o que estou fazendo, embora esteja apavorado. At sua irm ter tido a idia de usar a ns dois como o par romntico ilustrando a capa desse livro, nunca me ocorreu ser modelo.
 Eu tambm no.
Ele suspirou.
	Depois da semana tumultuada que tive, de bom grado eu trocaria esse trabalho por um fim de semana tranquilo fazendo absolutamente nada.
	Creio que o melhor a fazer  encarar isso do jeito que voc est encarando  respondeu Allie, grata por ele, sem saber, ter lhe sugerido um modo fcil de admitir o quanto tudo aquilo a afligia.
	Ou ser o fato de precisar trocar uma fralda que lhe  to assustador?  brincou ele.
Ser que Connor tinha o poder de ler mentes?
	Tem razo. Isso tambm  assustador  disse ela, tentando fazer soar como uma piada.  Confesso que nunca precisei trocar uma fralda, em toda a vida.
	Srio?
	Srio.
Ele levantou as sobrancelhas com ar indagador. Em seguida sorriu.
Por que aquele homem no a deixava em paz? Droga, nada daquilo tinha algo a ver com ele. Para piorar as coisas, dentro dos bolsos do casaco, suas mos comeavam a congelar.
	Bem, enquanto sua irm tira as fotos que precisa, tenho algo a fazer na casa. Estarei de volta em cinco minutos  disse ele, ento fez uma pausa.  Dez minutos.
	Dez minutos  ela assentiu.
Karen tinha a cmera pronta sobre o trip, posicionada no deque de madeira onde os barcos atracavam. Jane ainda dormia dentro da minivan. Com o motor desligado, e o aquecedor no funcionando, na certa ela ficaria com frio.
Allie abriu a porta do veculo e, com todo cuidado para no acord-la, desdobrou a manta de l e ajeitou-a em torno da garotinha adormecida, fazendo-se de forte, lutando contra a onda de ternura que dominava-a.
Teria a notcia da gravidez de Karen mudado alguma coisa? Tal possibilidade a oprimiu.
Tornou a fechar a porta, deixando apenas uma pequena fresta do vidro aberta para ventilar. Ento, foi para junto da irm.
 Voc o conhece h muito tempo?
Karen ergueu os olhos do visor da cmera.
 Connor? H uns cinco meses  disse ela, nem um pouco surpresa com a pergunta.  Talvez voc no se lembre, mas a casa dele  aquela que passou um bom tempo para ser alugada, ento foi colocada  venda. Esteve desocupada durante trs meses at que Connor a comprasse. Mudou-se no final de setembro, e foi ento que nos conhecemos.
Allie assentiu. A explicao revelou tudo o que ela queria saber. Porm, Karen tinha mais a dizer.
 Connor  uma pessoa extraordinria, Allie, do tipo que voc pode confiar. John e eu conhecemos seus pais e seus irmos. So encantadores.
Allie assentiu. Confiava plenamente no julgamento de Karen, e tinha conscincia de que ultimamente confiava em bem poucas coisas na vida. Ento, deliberadamente mudou de assunto:
	Est conseguindo algo que a inspire?
	Ainda no...  Karen voltou a perscrutar a paisagem.  Mas no pretendo desperdiar essa paisagem invernal. Tirarei o maior nmero possvel de fotografias, para o caso de Nancy de repente sugerir um cenrio que eu no possa cobrir. Gosto daquelas nuvens pairando sobre as montanhas. Poderei usar algumas dessas fotos para o livro infantil. Na verdade, precisarei de fotos das quatro estaes.
Allie riu. Era bem tpico de Karen. Ela possua muita energia para queimar, e, normalmente, vrios interesses ao mesmo tempo, profissionais e pessoais. Allie deu voz  gentil acusao.
Karen ergueu os olhos.
	Voc acha?
	Bem, apesar de estar to preocupada com a capa do livro de Nancy Sherlock, ainda lhe sobra tempo para pensar no livro infantil.
A expresso de Karen suavizou.
	Oh, sim... Claro.
	No que voc estava pensando?
	Nada...  A resposta foi muito brusca, sua expresso, sria demais.
Allie sentiu um fiozinho de suspeita, porm deixou que passasse.
 Pretendo tirar algumas fotos  noite. De interiores. E quero dar uma olhada nas roupas, ainda hoje, e tirar algumas fotos suas usando...
Ela interrompeu o que dizia, e fez um som que revelou sua impacincia. Karen estivera fotografando enquanto falava, trocando lentes, movendo o trip. De repente, a cmera fez um clique que at Allie estranhou.
	Mas o que  isso agora?  protestou a fotgrafa. Ela ento pressionou uma pequena tecla na cmera, porm nada aconteceu.  Nada de pnico  disse a si mesma, mas com a voz em pnico.
	Algum problema com a cmera?
	Parece que no quer funcionar. Vamos ver...  Ela continuou examinando atentamente o mecanismo da delicada cmera fotogrfica.  Se houver algo errado com ela que eu no pude reparar, juro que no perderei a calma  anunciou, puxando o rolo de filme para fora da cmera.
Connor foi recebido, ao retornar, vrios minutos depois, com a notcia de que logo que Jane e toda a bagagem tivesse sido descarregada, Karen iria at Albany, para consertar a cmera.
	Estarei de volta em trs horas, no mximo.
	Somente trs horas? Levar mais de duas para ir at l e voltar  Connor interveio.  E chegando l, precisar encontrar...
	Est bem. Trs horas e meia. Estarei de volta antes do anoitecer.
	Mas j so quase quatro.
	Antes do jantar.  Karen fez uma pausa e procurou ouvir.  Jane acordou.
	Sim, posso ouvi-la.
Jane acordou feliz. Dava para ouvir os rudos que ela fazia, brincando, vindos do banco de trs da minivan.
 Se voc puder vestir o agasalho nela, Allie, Connor poder levar vocs duas para a cabana e depois voltar para me acompanhar at a estrada principal. Enquanto isso eu tratarei de descarregar
o restante do equipamento. No precisarei lev-lo. Estarei pronta para partir em cinco minutos.
Desta vez, Connor nem mesmo se deu ao trabalho de oferecer uma previso mais realstica do horrio que Karen previra, e Allie estava ocupada demais pensando:
Jane. Terei de cuidar de Jane. Sozinha. No haver ningum por perto. Durante meia hora pelo menos, enquanto Connor estiver com Karen. E ento, quando ele chegar, seremos apenas ns trs, eu, ele e Jane. Durante horas.  assustador. No estou pronta. Nem sei mesmo se algum dia estarei. Ser que Karen no consegue entender? Por que ela faz isso comigo?
Porque ela est preocupada.
Allie percebia isso em sua expresso, na agitao com que lidava com tudo. Karen era esposa em primeiro lugar, esposa e me. E sonhava em ter uma famlia unida vivendo em sua casa em estilo Vitoriano, perto da casa de Connor. Porm, ao mesmo tempo, ela possua aquela veia criativa poderosa, que no conseguia ignorar.
Sua carreira como fotgrafa tambm era importante para ela, essa capa para o livro tido como um futuro best-seller, era importante demais. E Karen precisava continuar trabalhando, se de fato ela e John pretendessem ter a famlia numerosa que sonhavam ter. Ela precisava daquele trabalho, e sua cmera tinha emperrado justamente agora. Claro que ela entrara em pnico.
	Estou s suas ordens  avisou Connor. Ele olhou para o horizonte acima das montanhas cobertas pela neve, que circundavam o lago Diamond e acrescentou:  Vamos, Allie?
	No me esperem para o jantar  avisou Karen.  Embora eu pretenda estar aqui a tempo de sen-tar-me  mesa com vocs...
	Claro que estar.  Connor tranquilizou, como se no tivesse passado cinco minutos tentando convenc-la a no ir, em primeiro lugar.
Ele encolheu os ombros, com frio. Passava um pouco das quatro horas, no entanto o dia escurecia a olhos vistos. Havia previso de mau tempo, embora o cu limpo no desse essa impresso.
	E quanto a Jane, ela precisar...  Karen prendeu uma mecha dos cabelos atrs da orelha.
	Pode deixar. Entendo de crianas  disse Connor, mais uma vez tranqiiilizando-a.

	Allie... ela no tem muita prtica. Connor assentiu.
	J notei.
Ele na verdade estava um pouco intrigado com a frieza de Allie em relao  sobrinha. Talvez a primeira impresso que fizera dela precisasse de uma reviso. Caprichosamente, ela se esquivara da tarefa de agasalhar a garotinha e Karen acabou fazendo isso em seu lugar.
Connor notou sua tenso. Estaria zangada com a falta de interesse da irm pela sobrinha?
Eu ficaria zangado, decidiu ele. No custava nada mostrar-se um pouquinho mais calorosa com o beb.
	Cuide bem de Jane e de Allie  recomendou Karen quando ele a deixou na estrada principal.
	Claro. Mas sua irm ainda precisa que cuidem dela?
	Allie  uma mulher da cidade. No est acostumada com lugares ermos como este. Estou falando srio, Connor.
Por um instante, ela parou, apenas o suficiente para fit-lo nos olhos, ento continuou:
 Ela  uma tima pessoa. Sincera, divertida, calorosa, mas est passando por uma fase difcil.  Karen fez uma segunda pausa, como se pensasse naquilo que acabara de dizer.  De qualquer modo, no pretendo demorar. Sei que a previso do tempo no  boa, mas olhe para esse cu.  Ela apontou em direo onde o cu continuava azul.  Est parecendo que teremos uma tempestade?
De fato no parecia, e Connor olhou intrigado para as nuvens cinzentas reunindo-se  oeste. Karen podia estar certa. A tempestade poderia passar ao norte, ou ento cair durante a noite.
 Estou com o meu celular, caso precisem falar comigo  dizia Karen.  Vejo vocs mais tarde.
Enquanto ela se afastava velozmente, Connor se virava, dando de ombros. Comeou a caminhar de volta, em direo ao lago Diamond.
Allie veio receb-lo na varanda, enquanto ele estacionava  entrada da cabana.
	Se no estou enganada, ouvi voc dizer que ficaramos em uma cabana  disse ela.
	Eu jamais disse isso  respondeu ele enquanto a seguia para dentro da residncia. Allie tirara o casaco e usava cala comprida preta e suter azul.
Ela era uma mulher determinada, decidiu ao fit-la, apesar de ser to pequena. Se ele no tivesse notado isso em sua voz, teria visto no erguer altivo de seu queixo, e no flash eletrizante que surgia em seus olhos escuros, olhos que lembravam calda de chocolate quente, ele podia notar, agora que ela tirara o chapu.
	Karen disse...
	Karen pode ter dito que era, mas eu jamais disse isso  esclareceu ele, divertindo-se com seu trivial conflito.  Devo ter usado a palavra "lugar", o lugar de meu irmo, Tom, nas montanhas Adirondack. Lamento se ficou desapontada.
Ela devia ter assumido por conta prpria que era uma cabana, como as pessoas costumavam fazer.
	Desapontada?  Ela estremeceu de frio e foi para perto da lareira acesa, um sorriso sbito iluminando seu rosto e acabando com a tenso nela, uma tenso que Connor ainda no entendera.  Voc s pode estar brincando. O lugar  fenomenal! Tem at lareira! J estou me aquecendo.
	Aps voc ter falado com tanto entusiasmo em fogo acolhedor, boa msica, e chocolate quente, eu no podia deixar de acender a lareira na casa.
Connor no perdera tempo ao vir at o local e, deliberadamente, deixado o fogo aceso na lareira. Na hora, ele no sabia dizer o que o levara a fazer tal coisa. O aquecedor central seria mais do que suficiente.
Mas agora ele entendia. Queria imagin-la com o rosto iluminado como da primeira vez que a viu, e sentiu-se premiado quando o rosto dela se iluminou. Aquilo mudava totalmente sua personalidade, sugerindo um calor, uma suavidade e um senso de humor incrvel.
Karen mencionara tais qualidades nela, mas Connor no confiara muito. Preferia tomar as prprias decises.
	Bem, o lugar  maravilhoso  respondeu ela.  Embora eu ainda no tenha conhecido o restante. Nem sequer desfiz as malas.
	Nem mesmo preparou chocolate quente?
	No. Como eu j disse, estive me aquecendo na lareira. E... a Jane.  Allie ficou tristonha.
Connor lembrou do que Karen dissera sobre ela ter passado por uma fase difcil... Estaria doente?
	Deixe comigo  disse ele.  Vou preparar o chocolate quente, logo que trouxer tudo para dentro.
	No se incomode. Posso muito bem preparar o chocolate. E o jantar. Karen trouxe alguns pratos congelados. S quero que olhe Jane para mim. No quer me mostrar a cozinha?
Ele deu de ombros.
 Se prefere assim...
Jane outra vez. Ela de fato no queria saber da sobrinha. Connor tirou um instante para analisar o estranho desapontamento que o inundou.
At recentemente ele no permanecera em um lugar o tempo suficiente para pensar seriamente em se estabelecer. E at aquele momento, no tinha certeza se algum dia isso aconteceria.
No entanto, ultimamente, sentia-se estranhamente inquieto, no absolutamente certo de que fizera a escolha certa ao se associar aos irmos na empresa de software. Faltava alguma coisa em sua vida.
Algo importante, e uma voz intuitiva dentro dele mais uma vez lhe pedia para partir. Mas ele era do tipo famlia. Seus pais eram pessoas maravilhosas. Tinha sete irmos, aos quais era bastante chegado. Dois deles eram casados e felizes. Tinha trs sobrinhas adorveis.
Intimamente sabia que aquele sentimento famlia era o melhor remdio para os momentos em que ele se questionava sobre si mesmo, e sobre sua vida.
Uma mulher saudvel, capaz, e controlada como Allie devia pelo menos gostar da filha da prpria irm, considerou. Afinal, ningum estava lhe pedindo para que adotasse a garotinha! Qual era o problema dela?
Felizmente, Allie no notou seu olhar de reprovao, pois permanecia  janela, olhando para a escurido l fora, alheia ao seu dilema. Por quanto tempo ela pretendia ficar ali parada?
Jane encontrava-se deitada sobre um cobertor estendido no cho, a uma distncia segura da lareira. O aquecimento central aquecera rapidamente o ambiente, assim como o fogo na lareira.
A garotinha estava acordada, agitando os bracinhos e brincando com os ps. Ela precisava de todo o cuidado e ateno, no entanto, estava sendo totalmente ignorada pela tia, que mantinha-se  janela. Por alguma razo aquilo pareceu muito triste.
Instintivamente, Connor aproximou-se, precisando entend-la. Gostava bastante de Karen, que era calorosa, entusistica, cheia de energia e de otimismo... exceto quando entrava em pnico por causa da cmera. Por que sua irm tinha de ser to diferente?
Ele por pouco no a alcanara quando ela por fim se virou.
	Aquelas nuvens esto se aproximando rapidamente... Sinal de que vai nevar  disse Allie.
	Est parecendo... Tentei avisar Karen sobre as condies do tempo, mas ela me ignorou.
	Ela conseguir voltar, no  mesmo? Garantiu que voltaria ainda esta noite... A menos que a polcia rodoviria feche as estradas.
O desespero em seu rosto o surpreendeu.
 Se Karen garantiu que voltaria, ento ela far o possvel para estar aqui.
Algo naquela situao a aterrorizava. Seria ele? Connor achava que no. Mas havia algo. O pedido que Karen lhe fez para que cuidasse dela de repente comeou a fazer sentido. Karen devia saber que ela se sentiria desse modo. Mas por qu?
E por que aquela forte intuio de que as respostas passariam a ter uma grande importncia para ele?

CAPTULO II

Allie sorriu.  Voc no quer mostrar o meu quarto? Parece que h muitos deles, na casa.
	Seis, para ser exato.
	L em cima?
	Sim, venha comigo... Aproveite para desfazer as malas enquanto Jane ainda est feliz, deitada no cho. Creio que Karen deve querer o bero de armar no quarto dela.
	Acho que sim.
	Colocarei voc no quarto vizinho. Se a tempestade a prender na cidade, voc poder deixar a porta de ligao aberta. Desse modo ouvir se Jane acordar.
Allie assentiu.
Connor colocou algumas almofadas em torno de Jane, casualmente revelando sua experincia com bebs. Jane ainda no andava mas, de acordo com Karen, j comeava a querer engatinhar e s vezes conseguia se arrastar para longe.
 Isso a manter seguramente no lugar  avisou ele.
Allie chegou a invejar a facilidade com que ele se movia em torno da beb. Admirou o modo como estendeu a mo para afagar seus cabelos ralinhos, sem nem mesmo pensar naquilo que fazia. Algum dia, casado com a mulher certa, ele daria um excelente pai.
No entanto, para Allie, a idia da maternidade era assustadora. Ela trancara aquele compartimento em sua mente e jogara a chave fora.
Connor pegou o bero, a sacola com as fraldas descartveis e as duas maletas de Karen. Allie pegou a dela e o seguiu atravs da escada. Era uma excelente casa, ainda nova e construda com muita madeira e pedras.
Em outras circunstncias, ela se sentiria como se estivesse em frias, e estaria ansiosa para explorar o lugar. A casa, a ilha, as montanhas e as cidades prximas.
No entanto, diante da perspectiva de uma tempestade de neve, e ela estando presa naquela casa, sozinha com Connor e com Jane, parecia que... Bem, era como se estivesse em uma priso, um verdadeiro inferno emocional.
Ficaria presa ali por quanto tempo? tentou adivinhar, consternada.
 Aqui estamos  avisou Connor, abrindo a porta de um dos aposentos.
O quarto possua banheiro privativo, uma bela colcha de retalhos sobre a cama de casal, uma porta de ligao com o quarto vizinho onde Allie dormiria, e uma janela que se abria para uma paisagem inteiramente branca, de pinheiros cobertos pela neve... Alguns novos flocos comeavam a cair.
Karen j teria chegado a Albany? A tempestade j a alcanara?
 Alguma sugesto de como armar isso?  Connor indicou o bero desmontvel dentro de sua capa de nylon azul.
Allie balanou a cabea.
 Nenhuma.
Ela levou a mala para o quarto ao lado. Ao retornar pouco depois, parou para observ-lo lidar com o bero. Connor descobriu as instrues impressas nele e comeou a ler baixinho.
No querendo pensar em ter Jane to perto durante a noite e sobre o que aquilo poderia significar, Allie procurou se concentrar nele. Mesmo sem o volume do casaco que usava l fora, ele parecia incrivelmente slido e forte em seu suter preto. Ainda assim se movia com facilidade.
Ou melhor, a maior parte dele se movia com facilidade. Pela primeira vez, Allie notou que Connor mancava ligeiramente.
Aquilo chamou sua ateno para as linhas de suas coxas e quadris bem definidas pela cala preta e justa que ele usava. Teria se machucado, ou aquilo era permanente?
O que quer que fosse, no prejudicava sua graa masculina, apenas lhe acrescentava mais charme, e ao mesmo tempo, sugeria uma srie de possibilidades sobre o seu passado; devia haver muito mais a respeito de Connor Callahan do que os olhos podiam ver.
E o que se podia ver nele, era suficientemente impressionante.
Fazia muito tempo que Allie no via um homem usar sua fora e a boa aparncia assim to casualmente, e sem nenhuma arrogncia.
	Karen disse que voc est no ramo dos softwares  comentou ela, querendo saber mais a respeito dele. Karen afirmara que seu vizinho era do tipo confivel, mas isso no fazia com que ela se sentisse mais confortvel na situao em que se encontrava.
	 verdade  Connor assentiu enquanto encaixava a base do bero no lugar. Puxara as mangas do suter para cima, revelando os braos fortes e musculosos.  H dois anos eu me juntei  empresa de meus dois irmos. Cuido da diviso de games. Tom mantm um computador nesta casa, ltima gerao, mas nem sempre h energia eltrica para us-lo, e pelo jeito, no a teremos esse fim de semana.
	Nem que tivssemos. Karen nos manter ocupados o tempo todo.
Eu queria que ela no tivesse ido a Albany. Tudo por causa daquela maldita cmera!
	Ofereci minha cmera, para que tirasse as fotos que precisava, mas Karen no se impressionou  disse Connor. Mais uma vez seus pensamentos percorriam a mesma trilha.
	No  de admirar. Voc faz idia de como ela se sente em relao quela cmera?

	Estou comeando a fazer  admitiu ele.  Tambm comeo a conhec-las. H caractersticas em certos modelos que eu no imaginava existirem.
	 verdade... Algumas cmeras suas, e mesmo as alems custam uma verdadeira fortuna.
	A de Karen est segurada, eu espero.
	Definitivamente segurada. Sei que ela esteve agindo estranhamente esta tarde, mas minha irm na verdade ...
	Sei como sua irm   tranquilizou ele, puxando os protetores laterais do bero e fixando-os no lugar.  Um furaco de energia e com um corao de ouro... tima vizinha e excelente me.
	 verdade. Karen  uma me incrvel...  A garganta de Allie tornou a se contrair.
	Nos tornamos bons amigos, eu, ela e John, desde que se mudaram para a casa vizinha  minha  continuou ele. Se notou nela a sbita emoo, nada demonstrou.   por isso que resolvi ajud-la com a capa desse livro, e de muito bom grado. Contrrio do que meu irmo me acusou, no foi por pretender ser imortalizado, me tornando o novo Rhett Butler nas trs milhes de capas do novo livro de Nancy Sherlock.
	Trs milhes?
	No pretendem fazer um filme baseado no livro? Ento vender bem mais do que isso. Embora Karen suspeite que talvez eles usem uma das cenas romnticas do filme para ilustrar a capa das edies futuras.
	Voc parece estar bem a par do assunto...
	E voc, no? Karen leu o manuscrito do livro e o comentou comigo, assim como o problema com o design da capa. Assumi que ela tivesse feito o mesmo com voc.
	No. Karen e eu... Bem, ultimamente no temos passado muito tempo juntas.
 No?  Connor ergueu os olhos. Ele j tinha o montado o bero e encontrara a roupa de cama e o cobertor na mala de Karen.
Seus olhos se encontraram quando ele desdobrou um dos lenis de flanela. Allie sentiu o rosto arder e em seguida gelar, no espao de poucos segundos. Podia adivinhar exatamente o que ele pensava.
Ele sabe que  por causa de Jane. Mas no pode saber o porqu. Ser que ele vai deixar passar? No.
 Mas vocs parecem to unidas, como se realmente se importassem uma com a outra, que apreciassem estar juntas.
Seu tom era casual, mas ele deliberadamente a pressionava. Aquilo a enfureceu. Como ele se atrevia a bisbilhotar sua vida? Com que direito tentava coloc-la contra a parede? Agia como se reprovasse sua atitude.
Allie o fuzilou com o olhar, e ento... A conscincia daquilo a atingiu em cheiro. Havia qumica entre eles, insistente, fsica, cheia de promessas e deleites, que fazia seu corao disparar. Algo assustador, mesmo enquanto a deleitava.
No fundo, Allie sempre soube disso, desde o primeiro instante em que ouviu sua voz de bartono, desde o momento em que viu aqueles olhos intensamente azuis surgindo sob a aba do seu chapu preto.
E a sbita percepo daquela qumica respondeu s perguntas indignadas que ela silenciosamente acabara de fazer. O que dava a ele o direito de procurar por respostas? Ele tambm sentia a mesma qumica entre os dois.
Mas Allie no podia permitir. Precisava acabar com aquilo, precisava afast-lo. Aquela altura, no havia como permitir um homem em sua vida, nenhum homem, no com tanto ainda com que batalhar.
	Ns somos unidas  por fim ela disse.  Mas isso no significa que tenhamos de viver "grudadas", que no possamos nos afastar quando  necessrio.
	E voc tem precisado fazer isso ultimamente?
	Tenho.
Allie no diria mais nada. Connor que pensasse o que quisesse!
Ele deu de ombros e inclinou-se para acabar de arrumar o bero.
	Muito bonito  comentou ele, observando os desenhos na colcha, representando criaturas martimas ilustrando os nmeros de um a nove. Tocou em um dos desenhos e olhou para Allie.  Karen fez isso?
	No. Eu fiz.  Ela virou-se, deliberadamente, para no ver a surpresa em seu rosto.
	Voc?!  Connor estava atnito.
	Sim, eu. Por que o espanto?
	Ei... no se zangue  A voz dele suavizou.  Ser que cometi algum crime assumindo que voc est mais para executiva do que para prendas domsticas?
	Muitas pessoas conseguem ser ambas as coisas.
	Sim, claro, mas...
	Jane est chorando. Com licena, vou v-la  anunciou Allie, e em seguida saiu apressadamente do quarto.
Aps descer a escada ela se deu conta de que aquela era a primeira vez que correra para Jane, e sem qualquer angstia, em um punhado de vezes em que as duas estiveram sob o mesmo teto. Um tributo ao efeito que Connor Callahan causara nela.
 Ei, pequenina...  disse, suavemente ao se aproximar da garotinha.
Ela choramingava zangada, como se dissesse: Estou cansada de ficar parada olhando para esse fogo. Ser que ningum pensou em vir me tirar daqui e me mostrar algo mais interessante?
	Eu sei  disse Allie, como se ela tivesse dito aquilo. Ento, com o corao batendo em disparada, sentou-se no cho e pegou-a no colo. Mas no foi fcil.
	Voc quer sua... me?  perguntou, na voz uma entonao diferente.
O que acontecer se eu beij-la, se afagar sua cabecinha e deixar que suas mozinhas agarrem minhas roupas?
Sem se dar conta, Allie segurava Jane o mais longe possvel dela, os braos tensos, apesar de desejar abra-la com fora.
Ouviu os passos de Connor atrs de si.
	Quer que eu a segure?  Havia compreenso em sua voz.
	Oh, sim, obrigada... Vou para a cozinha, preparar o chocolate quente.
	Tambm vou querer um pouco. A cozinha fica  esquerda, no corredor.
	Dois chocolates quentes, ento. Vou colocar o jantar no forno para ir esquentando...  avisou ela.
	Jane tambm vai querer comer alguma coisa mais tarde  lembrou ele.
	Os potinhos com a comida esto dentro da sacola com as fraldas... Tem um forno microondas na casa? Jane deve preferir que esquentemos seu jantar.
	H um microondas, sim. Sabe a que horas Karen a alimenta? A que horas devemos coloc-la na cama?

	Ela deve comer por volta das sete, e dorme em seguida.
	Viu, criana?  Connor dirigiu-se a Jane.  No a tiraremos de sua rotina. Sabemos o que voc gosta de comer e a que horas... Assim voc no sentir falta da sua me.
Se o gorgolejo era uma resposta, soou como se Jane concordasse.
Na prxima meia hora, Allie permaneceu escondida, alm dos dez minutos em que ficou tomando chocolate, sentada perto da lareira, enquanto Connor trocava a fralda de Jane. Ele agia com tanta naturalidade que Allie nem sequer percebeu o que ele estava fazendo, at que colocasse a sacola com as fraldas sobre o sof e anunciasse:
 To fresca e limpa quanto uma flor.
De volta  cozinha, onde foi verificar a comida esquentando no forno, Allie se perguntou sobre a nova atitude de Connor em relao a ela. Ele deixara de ser hostil, e estava sendo bastante gentil, agora havia paz no ambiente.
L fora, a neve ainda caa macia e silenciosa, prometendo mudanas de planos. Porm, dentro de casa, o clima era aconchegante e sedutor.
O aroma delicioso de carne assada comeou a se espalhar pela casa, misturando-se ao cheiro da lenha queimando na lareira. Connor colocara um CD de msica suave para tocar, e talvez fosse isso, ou o calor do fogo, ou apenas o longo dia, mas as plpebras de Jane comeavam a pesar de sono.
Perto das sete horas, Connor entrou na cozinha com ela no colo e anunciou:
 Pelo jeito, essa princesinha no vai esperar at as sete... e  melhor esquecer o banho.
Allie apenas assentiu, lutando contra a perigosa onda de ternura que a invadiu diante das bochechas rosadas de Jane.
	Ela comeu todo o potinho  acrescentou Connor.  Tentarei fazer com que coma a sobremesa, mas no garanto. Onde est o cadeiro?
	No sei... H um cadeiro nesta casa?
	Acredite, na casa dos Callahan sempre h um cadeiro.
Allie riu.
	Que bom!
	Voc acha?  Ele lanou-lhe um olhar cheio de curiosidade.
	Um cadeiro em uma casa diz muito sobre a famlia vivendo nela.
	Sim, eu acho que sim... Na verdade, deve haver dois deles por aqui. Tom e Julie tm gmeos. Eles tm pouco mais de um ano... Dois monstrinhos adorveis.
 So meninos?
 Meninas. Minha me teve oito filhos homens. No entanto, essa nova gerao pelo jeito especializou-se no sexo oposto.
	Sua me deve ador-las.
	Tem o maior xod por elas... J meu pai, no posso dizer...
Ele no disse mais nada. Encontrou um cadeiro na dispensa e o trouxe para fora. Sentou Jane nele, prendeu-a bem e foi aquecer o potinho com o pur de ma com bananas. Comeou a dar a Jane com uma colher. Como ele previa, no meio do pote, suas plpebras se fecharam e sua cabea pendeu para a frente.
Vendo-o tir-la gentilmente do cadeiro, Allie perguntou, forando um tom casual:
	Devo arrumar a mesa do jantar aqui ou...
	Ser melhor comermos perto da lareira, no acha?
	Sim, claro.
	No quer dar um beijo de boa-noite na nossa princesinha?  perguntou ele.
Houve uma breve pausa.
 Sim, claro.
Connor trouxe Jane para perto dela, segurando a garotinha para que Allie a beijasse, enquanto a fitava pensativamente.
Nunca fiz isso antes, nunca a beijei, Allie pensou, angustiada.
Mas ela conseguiu. No foi exatamente um beijo. Foi mais um leve roar de lbios no rosto aveludado. De algum modo, Allie foi capaz de sufocar as emoes que a assaltaram.
Quando Connor se afastou levando Jane no colo, ela precisou recostar-se ao granito da pia, no confiando nas prprias pernas.
Karen telefonou enquanto Connor colocava Jane no bero. Ela parecia cansada, porm resignada.
Allie tambm procurou resignar-se com as notcias que sabia que receberia.
	Onde voc est?
	Em Albany, em um hotel. Desculpe no ter ligado antes, mas a viagem at aqui foi um pesadelo. A tempestade me alcanou em Saratoga, e quando por fim cheguei aqui, o comrcio estava prestes a fechar as portas. Precisei convencer o dono de uma loja para que me atendesse.
	Ele consertou a cmera?
	Felizmente, sim. Levou meia hora. Tentei voltar para casa depois que peguei a cmera.
	Que loucura, Karen!
	Nem me fale. Mas eu tinha esperana de que a tempestade no tivesse cado to forte por a. O cu continuava azul... bem, meio azul quando parti. Mas a estrada estava fechada e a polcia rodoviria me fez voltar. Mas se o tempo estiver melhor pela manh, talvez eu possa viajar.
	Por favor, Karen, no se arrisque.
	Pode deixar. E Jane? Como est?
	Bem, muito bem... Connor acaba de subir para coloc-la no bero.
	Isso  bom...  Karen suspirou, claramente desejando saber mais sobre a beb, mas pelo visto, desistiu.
Ela tambm no pediu: "beije-a por mim", e Allie tambm no disse que tinha feito isso.
 Tornarei a ligar pela manh. Anote o nmero daqui, para o caso de precisar falar comigo...
Connor desceu a escada justamente quando a conversa terminava. Parou  porta e ouviu durante um instante, sem culpa, j que Allie havia se virado ao sentir sua presena. Portanto, no estava bisbilhotando, estava apenas intrigado com o mistrio e a complexidade da mulher que ele comeava a conhecer.
Pensou na colcha infantil que ela confeccionara, e aquilo revelou sua criatividade e seu apego s coisas belas. O que ser que ela fazia profissionalmente? Assumira que devia ser algo importante, o tipo de trabalho onde era necessrio estar sempre impecavelmente vestida, e onde lidava com dinheiro, propriedades de clientes, banqueiros internacionais e corporaes.
Mas a quantos profissionais desse nvel sobraria tempo para bordar uma colcha infantil? E quantas pessoas, no importa o que fizessem para viver, fariam um trabalho to bonito para um beb que mal conseguiam ter nos braos, ou tocar sem ficarem tensas, como Allie ficara ao pegar Jane no colo? Ao beij-la no rosto?
Connor sentiu uma vontade imperiosa de segur-la pelos ombros e exigir-lhe explicaes. Mas afinal, o que houve com voc? O que foi que a feriu? Que posso fazer para curar suas feridas?
Aquela ltima questo era totalmente sem sentido, fazia apenas trs horas que a conhecia!
Connor entrou no aposento quando Allie desligou o telefone.
	Karen est bem?
	Sim. Registrou-se em um hotel em Albany. Graas a Deus ela conseguiu encontrar algum que consertasse a cmera.
	Ufa, ainda bem. Agora estou mais tranquilo. Temia que ela fosse se aventurar a viajar para c a noite.  Connor sorriu.  O jantar est pronto? Est cheirando deliciosamente bem.
	Karen  tima cozinheira.
	Eu sei. Tive oportunidade de provar sua lasanha.
	Essa carne assada com molho madeira que ela preparou  melhor ainda.
	Voc tambm sabe cozinhar?  Ele no pde evitar a pergunta, enquanto traziam os pratos para perto da lareira. Preparou-se para no ficar muito surpreso se ela confessasse que sabia cozinhar.
Allie, no entanto, fez uma careta.
	Eu tento, mas confesso que sou um verdadeiro desastre na cozinha.
	Mora sozinha?
	Moro, em um apartamento.
	No  um grande incentivo vivendo sozinha, no acha?
	Incentivo?
	Aprender a cozinhar.
	Ah, sim. Voc precisa ter algum para quem cozinhar.
Por um breve instante seus olhos se encontraram. At que Allie desviou os dela, mas no antes de lerem o bastante na expresso um do outro, coisas que eles nem sequer imaginavam chegar a confessar.
Ambos ento se recobraram e procuraram se ocupar. Connor se afastou por um instante para abrir uma garrafa de vinho tinto e servi-los.
 Karen no comentou sobre seu trabalho  disse ele, ao se sentarem para comer, no sof de dois lugares.
Ele tentou soar o mais casualmente possvel, mas na verdade, ansiava por saber. Tinha a impresso de que, qualquer que fosse o seu ramo de atividade, sua resposta o surpreenderia.
E no se enganou. Quando Allie falou, ele obteve resposta para pelos menos uma das muitas questes que se fazia sobre aquela mulher intrigante.
 Trabalho em uma emissora de rdio  explicou ela, com um sorriso.  Tenho um programa matinal na WPYR. Tocamos aquilo que  solicitado pelos ouvintes. "No Somos os Maiorais da Philadelphia, mas Somos os Maiores..."  Allie usou a mesma voz que usava "no ar", uma voz rica, meldica e sensual.
Connor levantou-se, atnito, ento precisou verificar se de fato ouvira direito.
	Est me dizendo que voc  A.J. Todd?
	Alison Jane Todd.
	E inacreditvel. Costumo ouvi-la diariamente, a caminho do trabalho. Karen nunca disse nada a esse respeito.
	Por que ela faria isso? Afinal a WPYR  uma pequena emissora de rdio, sem muita importncia, e no sou famosa.
Mas pelo que me concerne, possui a voz mais sensual do rdio americano.
Felizmente ele no disse aquilo em voz alta. Sozinho ali, com a noite inteira pela frente, com apenas um beb de seis meses acompanhando-os, ele no precisava faz-la julgar que estava a fim de seduzi-la.
Suspeitava que ela seria capaz de congelar o homem que tentasse fazer isso. E, embora Connor ainda no tivesse certeza do qu exatamente desejava dela, sabia que no era aquilo.
Procurou na mente por um tema mais seguro para discutirem.
	Voc tem grandes ambies, A.J. Todd? Sonha em se tornar um grande nome do rdio?
	Claro!  respondeu ela, com entusiasmo. Em seguida estreitou os olhos e repetiu em um tom menos definido:  Claro, que desejo.
Connor sentiu ali uma pequena fresta por onde poderia tentar entrar em seu mundo.
	Sabe que no  proibido ter ambies...  disse ele.
	Bem, no , mas eu presumo que na famlia sou aquela que leva a srio a carreira. Karen  uma excelente fotgrafa, mas para ela, a famlia est em primeiro lugar, e sempre estar. Clare, nossa irm caula, desde criana tem vocao religiosa.
	Ento, voc se posiciona como a mais ambiciosa das trs?
	Me posiciono?  perguntou ela, a voz fria.
	Voc  a do meio, no ? Tambm sou, e sei como  isso.
Ento Allie no gostava daquele tipo de anlise? Por alguma razo, ele queria que Allie aprendesse a confiar nele, tanto que estava preparado para forar um pouquinho.
 Existe a mesma necessidade de lutar por um nico lugar quando se  o filho do meio. Isso por um lado  bom, mas por outro... Bem, passei uns bons anos trabalhando no que no queria, s para provar um ponto de vista.
	Como assim?
	Quer saber que ponto de vista?
	No, no que voc trabalhou, sem gostar.
	Bem, trabalhei com perfuraes de petrleo no Alaska, fui motorista de uma banda de msica country, e trabalhei como dubl em filmes. Foi como machuquei a perna, no sei se notou...
	Notei, sim  admitiu ela. Mas no admitiria que o leve defeito o tornava ainda mais sensual.
No querendo ir adiante com o assunto, Allie escondeu-se atrs de um gole de vinho. Seu copo estava quase que vazio, mas ela definitivamente pararia por ali. No era dada  bebidas alcolicas e no comearia a ser agora.
Injusto. Totalmente injusto. Allie no pretendia passar trs horas perto do fogo com ele, conversando enquanto jantavam e bebiam caf, para depois afundarem relaxados no sof. No queria ter sentido bocadinhos de si mesma acidentalmente escapando do seu controle, enquanto ela ia contando suas coisas para ele.
Mas de qualquer modo, foi justamente o que aconteceu.
No final da noite, Connor ficou sabendo que ela sempre sonhara em ser cantora, at entender que sua voz no dava para isso. E Allie ficou sabendo que Connor ocasionalmente se sentia como se estivesse em alguma espcie de competio com Adam, seu irmo mais velho, e tido como sendo o melhor de todos.
Connor tambm ficou sabendo que Allie aprendera a bordar na escola noturna, por no querer pedir  me para ensin-la, para no ouvi-la vir com o inevitvel: "Voc? Bordar? No posso acreditar".
Ele tambm ficou sabendo que, na ltima primavera, por vrios meses ela estivera afastada do microfone da rdio WPYR. Frias foradas. Mas ela no disse que nesse perodo estivera em Allentown, Pennsylvania, com os pais, e que l vivera como uma reclusa. Pela primeira vez ele no a forou a dar maiores detalhes sobre to longas frias.
Eram quase onze horas quando Allie por fim anunciou:
	No sei quanto a voc, mas eu vou dormir. Karen avisou que Jane acorda cedo, por volta das seis.
	Quer que eu levante para cuidar dela?
	No, obrigada...  Ela balanou a cabea firmemente.  Jane  minha sobrinha, e minha responsabilidade, no sua.
Seria o vinho? De repente ela via as coisas mais claramente, e sentia-se mais confiante em si mesma, aps tantos meses de incertezas. A notcia da gravidez de Karen teria mudado alguma coisa? Talvez tivesse mudado tudo.
Connor deu de ombros.
	Como quiser. Nesse caso, v dormir, e deixe a loua por minha conta.
	Tem certeza?
	Sou seu anfitrio, e os pratos so responsabilidade minha, no sua  disse ele, imitando-a.
Minutos depois, Allie subia a escanda indo em direo ao quarto, sabendo exatamente porque estivera relutando em subir.
Toda vez que pensava como faria no dia seguinte, se a neve persistisse, ela ficava cada vez mais nervosa.
 Se Karen estivesse com segundas intenes ao programar aquele fim de semana, ela no poderia ter planejado melhor, mesmo que desejasse!

CAPTULO III

Os sons de alegre gorgolejo arrancaram Allie de um sono profundo. Levou um segundo para que se desse conta do lugar onde se encontrava. E com quem se encontrava.
Aquela era a casa do irmo de Connor, nas montanhas. E aquele barulho no quarto ao lado era Jane quem fazia. Ela acordara uma vez durante a noite, mas tornara a dormir em segundos. Naquele momento, sozinha no bero, ela parecia estar feliz e satisfeita. Mas Allie sabia que aquilo no duraria para sempre.
Afastou as cobertas para o lado e levantou-se. Foi para a janela e olhou para a escurido l fora. Mas no pde ver se continuava nevando. Foi para o banheiro, tomou banho e vestiu-se.
Jane ia ficando cada vez mais barulhenta, e era como se dissesse: Estou cansada de ficar neste bero. Me tirem daqui!
 Shhh! No vamos acordar Connor!
Allie inclinou-se sobre o bero e levantou o beb. Sentiu as mozinhas agarrarem seu suter.
Oh, ela estava to quentinha! Usava um macaco de flanela que mais parecia um saco de dormir e que a mantinha aquecida. O desejo de abra-la era to forte e poderoso, que Allie se rendeu a ele, abraando-a fortemente, sentindo seus cabelos de seda contra o rosto.
Que Deus me ajude!
Eram seis e quinze da manh e Allie costumava no ter foras aquela hora. O que mais ela podia fazer a no ser se entregar aquele desejo poderoso?
 Vamos descer e trocar a fralda?
Desceu a escada na ponta dos ps e prosseguiu at a cozinha, onde calculou que a luz e o barulho no perturbariam o sono de Connor.
Ela precisa tomar banho, decidiu.
Inexperiente na lida com bebs, Allie sentia-se totalmente desajeitada. Mas se Jane tinha de tomar banho, iria precisar de uma toalha. E claro, de roupas limpas, que estavam no quarto l em cima. Seguiu em direo  escada, com Jane no colo.
Toalhas, roupas, loo, xampu infantil, pomada... ser que no precisaria de mais nada? Ah, o esterilizador. Esse estava l embaixo. O que ser que Karen colocava na mamadeira junto com o leite? Ser que havia alguma receita? Jane devia estar com fome, embora no se queixasse.
Mas pelo visto, a qualquer momento ela faria isso e acordaria Connor.
Oh, Senhor...
Ela estaria rezando ou simplesmente querendo que ele acordasse? Ele no acordou, e Allie chegou  cozinha trazendo o que iria precisar.
Encontrou uma bacia funda na lavanderia e calculou que serviria como banheira. Segurando o beb, ela esterilizou a banheira improvisada e abriu a torneira de gua quente. Verificou a temperatura. Estaria quente demais? Ou muito fria? As mes costumavam testar a temperatura usando a parte interna do pulso. Ou faziam aquilo para verificar a temperatura do leite na mamadeira?
Porm, nada em sua experincia era to difcil como a emoo que sentia.
Amor.
Oh, Deus, ela amava aquela criaturinha adorvel. A sua, no a de Karen. Sua, nascida dela, feita por ela, alimentada por ela, embora tivesse dito a si mesma, meses atrs, que no deveria jamais pensar desse modo. Teria de se convencer que Jane pertencia a Karen, e acreditar que era o mais certo.
Ser que ela ainda acreditava nisso?
No dia anterior, Karen lhe dera a oportunidade de responder a essa dolorosa questo. Mas como respond-la?
Quando Jane estava de banho tomado, perfumada e vestida, Allie sentou-se para dar-lhe a mamadeira, mas notando os sons entusisticos que ela fazia com a boca ao sugar o leite.
Enquanto isso, sua mente retornara ao passado. Lembrou-se ento do parto, h seis meses. Vinte e oito horas de dor, antes de o mdico assistir a vinda de Jane ao mundo.
Ela nasceu bem grande, com quase quatro quilos, tornando o parto um risco diante da fragilidade de Allie. E ainda assim, aps todas as suas dvidas e incertezas, aps ter chegado a considerar entregar a criana para doao, ao ver Jane pela primeira vez, Allie sentiu uma ternura imensa pela filha recm-nascida, e uma euforia imensa a inundou. Mas somente por alguns instantes.
 Uma menina? Mas quando fez a ultra-sonografia, voc no julgou que fosse...
O obstetra olhou para ela com ar preocupado. Allie jamais gostara dele durante as visitas pr-natal que fez, mas no pensara em trocar de mdico, j que aquela era a menor de suas preocupaes.
 De fato, a ultra-sonografia sugeria que a criana fosse do sexo masculino  explicou o mdico.  Mas com somente vinte semanas de gestao nada  definitivo. Neste caso, eu me enganei. Faz diferena para voc? Preferia que fosse um menino?
Porm, Allie no teve chance de responder, nem ao dr. Leith, nem a si mesma. De repente, ela comeou a perder sangue, deviso a uma dramtica hemorragia ps-parto que terminou com uma transfuso de sangue de emergncia e dois dias de extrema fraqueza e exausto.
E no foi tudo. Contraiu uma infeco que teimava em resistir aos antibiticos, e durante um certo tempo, sua vida esteve por um fio. Somente trs semanas depois foi que lhe deram alta do hospital.
At ento, Jane permanecera sob os cuidados de Karen. Fora o que elas haviam planejado durante as ltimas semanas de gravidez.
 Voc ter todo o direito de mudar de idia. Ela  sua filha, Allie. Poder t-la com voc quando assim desejar.
Allie no se atrevia a pensar na possibilidade de que, se ela no tivesse sofrido aquela hemorragia ps parto, e em seguida a infeco, ela poderia ter ficado com Jane, poderia t-la amado.
O quase que fatal episdio lhe pareceu como um sinal de que ela tomara a deciso certa.
Sempre que lembrava da revolta, da ambivalncia que por tantas vezes sentira durante a gravidez e tambm durante o parto, ela ficava aterrorizada. No se sentia pronta para ter um beb, mesmo um concebido em melhores circunstncias.
Porm, Jane no fora concebida desse modo. Fora concebida em meio a um pesadelo.
 Fiz o que achei ser o mais certo  Allie dissera a si mesma vezes sem fim.  Porque se eu me pegar alguma vez sentindo em relao a Jane, uma partcula do dio e do desprezo que sinto em relao ao pai dela...
E desde a primeira vez em que teve Jane nos braos, Karen a amou, como se ela fosse sua filha.
Karen e John h muito tempo tentavam ter um filho. Os mdicos disseram que no havia motivos para eles no t-lo, e que deviam ter pacincia e continuar tentando. Mas para Karen era duro ser paciente. E, diante da infertilidade da irm, Allie no foi capaz de considerar interromper a gravidez.
Mas por fim, Karen engravidou, e por vrias vezes afirmou que, se algum dia Allie mudasse de idia ela entenderia.
Seria justo? Seria seguro? No seria tarde demais?
Oh, era to difcil!
Allie enxugou as lgrimas do rosto com as costas da mo e olhou para o rosto do beb. Jane terminara de tomar a mamadeira e havia vestgio de leite em sua boca. Ela sorria e agitava os bracinhos.
 Diga como , Jane...  sussurrou ela.  Como  estar em um mundo to novo? Para voc  tudo novo, no ? O calendrio comeou no seu primeiro dia de vida. Para voc no h passado, nem mgoas e nem sofrimento, e quando eu te vejo sorrindo... Oh, esse sorriso... Uma vida sem mgoas, sem ressentimentos. Comeando do nada. Com voc, Jane.
Um segundo depois, Jane parou de sorrir e comeou a retorcer-se em seus braos. Allie no entendeu,  princpio, o que estava acontecendo, at lembrar-se dos gazes. Levantou-a e apoiou-a no ombro, antes de dar-lhe leves tapinhas nas costas, at o ar escapar e Jane tornar a sorrir.
Foi ento que ela ouviu passos na escada.
Oh, droga!  Connor. Ele no pode saber que chorei!
Ela saiu pela porta e entrou na lavanderia justamente quando ele entrou na cozinha. Teria notado seus olhos vermelhos? Allie no suportaria v-lo adivinhar seu conflito interior.
	Bom dia  disse ela, to casualmente quanto sua garganta conseguiu.
	Meus parabns  disse ele.
	Parabns? Por qu?
	Voc no disse que nunca tinha cuidado de um beb? Parece que est se saindo muito bem para uma novata.
	No  to difcil. Creio que andei exagerando  brincou Allie.  Basta um pouco de boa vontade. Acho que agora conseguirei fazer isso dormindo.
	Quer dizer ento que quando Karen voltar voc ter escrito um manual de como cuidar de um beb? Estou ansioso por ver seu progresso tambm em outras reas.
 No conte com isso.  O bom humor passou a ser forado. Allie notou a tenso na prpria voz.
Eu no costumava ser essa pessoa, sempre to tensa e assustada. Ser que algum dia voltarei a ser como era antes?
Seus dedos tremiam ao tentar prender as fitas adesivas da fralda descartvel. Foram necessrias trs tentativas antes de conseguir prend-las no lugar. A nica coisa boa na demora da tarefa, era que na hora que terminou, ela sabia que seus olhos no estavam mais vermelhos.
O que ela no sabia era que Connor vira seu rosto tenso, seus olhos vermelhos antes de ela correr para a lavanderia. Allie estivera chorando.
Ele no sabia por qu. De certo modo, o porqu no importava tanto, e sim o efeito de suas lgrimas nele. Connor nunca na vida sentira tamanha necessidade de fazer algo como naquele momento sentia, de aproximar-se dela e fazer o que fosse para que Allie esquecesse o medo e a tristeza.
Enquanto Allie trocava a fralda molhada de Jane, com mos trmulas, ele pensou em todos os modos possveis de alegr-la.
Para comear, um farto caf da manh. Era apenas sete e meia e o sol comeava a surgir atrs das nuvens, revelando um cu intensamente azul. O vento levara a tempestade para longe.
Tom e Julie mantinham a despensa bem estocada. Havia ovos e fatias de bacon na geladeira, waffles, salsichas e frios no freezer. Alm de vrias caixas de leite e po de forma. Allie parecia to frgil, como se tivesse estado doente.
s vezes, ela de fato dava a impresso que estivera enferma, ficava incrivelmente plida quando seu rosto no era tingido de vermelho pelo frio. Ento decidiu que precisava fortalec-la. Iria lhe servir um excelente caf da manh.
Um no, dois. Ele no era homem de deixar um hspede seu comer sozinho.
O telefone tocou.
Allie entregou Jane a Connor e foi atender na sala de estar. Ao ouvir a voz de Karen, ela suspeitou que havia algum problema.
	Voc ainda est no hotel?
	No. Na verdade, deixei-o para trs, a cerca de vinte quilmetros. Estou na delegacia de polcia, em Wayans Falis.
	Na delegacia? Mas o que houve?
	Voc nem imagina... Acordei cedo, ansiosa para voltar, e vendo que a tempestade havia passado, presumi que j tivessem retirado a neve da Interestadual, assim como a estrada para o interior. Mas a Interestadual ainda estava bloqueada. Ento estacionei antes que atolasse na neve. De repente, um caminho desgovernado veio em minha direo e lanou-se sobre mim. Acho que estacionei no lugar errado... A minivan, bem... quase nada sobrou dela.
	Oh, meu Deus...
Allie teve uma viso do acidente, completo com o som de metais retorcidos. Pde apenas agradecer a Deus por Karen no ter se machucado. Pelo visto ela no estava dentro do veculo.
 Ento, eles me trouxeram para a delegacia  acrescentou Karen.  Me deram um tipo de brandy medicinal.  Ela soluou.  Pensei em ir para o aeroporto, mas eles aqui me disseram que as estradas sero liberadas somente amanh cedo. E se voc puder pegar a cmera de Connor emprestada e tirar algumas fotos para mim, Allie, antes que Nancy Sherlock e aquela sua grande editora multinacional faa isso, eu lhe serei imensamente grata! A boa notcia,  que nada aconteceu com a cmera.
Ela finalizou a conversa com uma risada que era mais um soluo. Allie ento respirou fundo e assumiu o papel da irm mais forte.
Pareceu estranho, muito estranho.
No passado, ela costumava ser a mais forte das trs. Foi aquela que aconselhou Karen a mostrar ao seu futuro marido, John, como ela se sentia em relao a ele, no ponto em que tudo indicava que o relacionamento dos dois no iria a lugar nenhum.
Fora Allie quem procurou pelos vrios admiradores de Clare, aqueles que consideravam seus planos de unir-se a Ordem das Irms Carmelitas como sendo um desafio pessoal  sua masculinidade, para avis-los que deveriam se esquecer dela.
No entanto, desde que descobriu que estava grvida, h cerca de um ano, tornou-se a mais fraca das trs, frgil e insegura.
 Est bem. Prometo que faremos o melhor possvel, eu e Connor...
Quando Allie desligou o telefone, minutos depois, ela sentiu sua antiga fora retornar. Connor permanecia recostado ao batente da porta, observan-do-a com aquela expresso pensativa que ela comeava a conhecer. Trazia Jane no colo e a frigideira de fazer panqueca na mo.
	Eu ouvi  disse ele.
	Voc se importaria de me emprestar a mquina fotogrfica?
	Eu j a ofereci, lembra-se?
 Isso foi ontem, mas Karen hoje est mais desesperada.
 Podemos comear a fotografar aps o caf da manh  disse ele.  E vamos rezar para que consigamos algo que ela possa usar.
	Voc disse caf da manh?
	Sim, j est pronto. Caf completo. Com o frio que est fazendo, precisamos nos alimentar bem.
	Brrr!  Allie estremeceu s de pensar no frio que fazia l fora. Abraou a si mesma.
	No est animada com a tarefa?
	Nem um pouco.
 Ei, A.J. Todd, anime-se! Ser divertido! 
Quando Allie sentiu os olhos azuis percorr-la, ainda brilhando bem-humorados, ela foi assaltada pela inexplicvel certeza de que ele estava certo.

CAPTULO IV

Perfeito! Agora, um sorriso  pediu Connor.
Ele tinha a cmera pronta, e prestes a fotografar. Allie abraava Jane, tendo ao fundo os pinheiros cobertos pela neve. As duas usavam antigos trajes de pioneiros americanos, que Karen trouxera com ela.
Ambas se encontravam enroladas em xales de l. Embora o dia estivesse claro e ensolarado, a temperatura estava bastante baixa. Sob as botas de Connor, o gelo rangia, enquanto ele se movimentava, tentando um melhor ngulo para fotografar.
	Voc sabe o que mais?  perguntou ele.
	O qu?
	Vamos esquecer que so fotos para ilustrar a capa de um livro que nenhum de ns dois leu. E no vamos mais tentar adivinhar como sero os personagens da histria, ou criar um clima. Tiraremos as fotos como se estivssemos passando frias na regio. E no devemos esquecer que temos apenas um rolo de filme.
E assim fizeram. Antes mesmo que Allie percebesse, Connor tirou trs fotos de Allie junto com Jane.
Depois, ele tirou uma foto de Allie, sozinha, uma figura triste e solitria, com sua saia longa e antiga, posando contra o brilhante cu azul. Fotografou-a erguendo Jane no alto, que sorria deleitada, os olhos brilhando. A expresso de Allie era de pura ternura, partilhando da alegria da inocente Jane. Depois tirou uma foto de Jane no tren.
Ento, foi a vez de Allie assumir a cmera. Fotografou Connor perto de uma tora de madeira, usando o machado para cort-la. Para um maior realismo, ela o fez entrar em ao, cortando lenha de verdade, erguendo o machado sobre a cabea e em seguida rachando a tora ao meio. O fez repetir isso vrias vezes.
 Matando dois coelhos com um s cajadada...  disse ela.  Notei que nosso estoque de lenha est no fim.
Allie tirou mais algumas fotos e em seguida devolveu a cmera a Connor.
Por fim, em um impulso incontrolvel, ele se aproximou de Allie que segurava Jane no colo e passou um dos braos por seu ombro. Com o outro brao estendido, apontou a cmera na direo que esperava ser a certa para fotografar os trs. Comeou a clicar.
Primeiro, captou a expresso surpresa de Allie, ento, o brilho da suspeita em seus olhos, e por fim, e s Deus saberia dizer o que o fez ceder ao impulso, captou sua expresso chocada, ao mesmo tempo em que abaixava a cabea para capturar-lhe os lbios com os dele.
O beijo durou apenas um instante, mas seu efeito foi esmagador. No incio, Allie sentiu o corpo inteiro tenso. A respirao, o estmago, os msculos e at mesmo o couro cabeludo. Momentos depois, o efeito reverteu. Era agora um desencadear de arrepios que a percorreram por inteiro, enquanto ela se sentia derreter por dentro.
Os lbios de Connor eram to calorosos, protegidos pela gola de pele do casaco, to suaves, que Allie arregalou os olhos quando por fim ele ergueu a cabea e a fitou, o rosto apenas a centmetros do dela. Pelo visto, ele nem lembrava mais das fotografias.
Porm, no Allie.
	Creio que j chega, no acha?  disse ela, sem flego, embora tentasse com todo o empenho nada demonstrar.  O filme deve ter terminado.
	No. Ainda restam duas fotografias  disse ele, com a voz enrouquecida.  Ainda no li o livro de Nancy Sherlock, mas definitivamente trata-se de um romance de amor. Creio que teremos de repetir essa ltima foto.
	Por qu? Acha que no ficou boa?
Connor mantinha o brao sobre seu ombro. Allie respirou fundo para afastar o pnico que sentia, para sufocar a nsia louca de atirar-se em seus braos.
 Apenas mais duas fotos... no vai demorar. Quero ter certeza de que ficar perfeita  disse ele, suavemente.
Entre eles, Jane sorria feliz, como se dissesse: Isso est mesmo divertido... estou bem quentinha aqui no meio.
Connor sorriu, um sorriso sedutor. Pelo visto, ele estava apreciando imensamente aquele momento, e no tinha medo de revelar isso.
Ele se aproximou devagarinho enquanto falava, a boca contra a de Allie.
Ela sentia-se prestes a se afogar nas profundezas daquelas pupilas azuis. O pnico travava uma batalha com o desejo dentro de si. A vontade que tinha era a de entreabrir os lbios, erguer a mo para seu rosto e pressionar-se sedutoramente contra ele.
Mas em vez disso, Allie recuou.
 Creio que foi suficiente. Jane precisa tomar mamadeira e dormir.
Ela j se afastava em direo  casa enquanto falava, a saia pesada de seu traje arrastando na neve, deixando claro que no mudaria de idia.
Jane comeou a choramingar confirmando as desculpas apressadas de Allie. Ela de fato estava com fome e cansada.
Aps dez passos, instintivamente ela olhou para trs, e viu Connor parado no mesmo lugar, a cmera esquecida na mo. Ele a fitava com os olhos estreitados, e Allie precisou de toda a determinao para tornar a virar-se e continuar andando, em vez de render-se  fora das emoes que a assaltavam e... e gritar um pedido de desculpas, ou tentar explicar a prpria atitude.
Mas no havia explicao, porque ela no fazia idia daquilo que acontecia dentro de si. Tudo o que sabia  que era algo apavorante, to repentino e inoportuno como a tempestade da noite anterior. A nica diferena era que, no caso dela, no havia qualquer perspectiva de trazer a beleza de cores e de luz que agora os cercavam.
Deliberadamente, na prxima meia hora, Allie absorveu-se totalmente na tarefa de cuidar de Jane. Aps aliment-la, foi se esconder no quarto com a beb. A nica pista daquilo que Connor fazia era fornecida pelo som ritmado do machado golpeando a madeira vindo de fora.
Allie no se atreveu a especular quais seriam os sentimentos dos quais ele precisava se livrar apelando para a exausto fsica.
No se atreveu a considerar que ela tambm podia estar fazendo a mesma coisa, ao se concentrar no beb. Trocou as roupas de Jane, a fralda, evitando que ela chorasse de cansao fazendo brincadeiras e caretas para distra-la. A exploso de amor e de ternura nela, sempre que Jane ria, ou lhe estendia a mo, j no parecia to assustadora como fora no dia anterior.
Seu corao transbordava de calor. Allie se sentia chorosa, trmula e feliz, muito feliz, e ao mesmo tempo, terrivelmente confusa em relao a Connor.
Tente no pensar nele! Esquea aquele beijo!
Allie colocou Jane no bero com um brinquedo, para que ela se distrasse enquanto o sono no vinha.
L fora agora, havia apenas silncio. Allie saiu do quarto e parou por um instante no patamar da escada. Pde ouvir Connor na cozinha.
No quero v-lo!
Allie se rebelou contra a prpria impotncia diante da situao. Devia haver algum modo de sair dela. Se Karen no pudesse voltar, ela, Jane e Connor poderiam ir embora... Nem que fosse a p.
Na sua ansiedade em sair dali, mal notou que vestira as botas, o casaco, e o chapu. Passou pela sala na ponta dos ps. Connor continuava ocupado na cozinha.
L fora, as casas do outro lado do lago pareciam acenar-lhe. Logo ela alcanou o lago congelado e comeou a atravessar por ele, meio cega pelo sol. Era quase meio-dia e a neve refletia a intensa claridade do sol. Puxou a aba do chapu sobre os olhos. Aquilo ajudou, embora no conseguisse enxergar adiante. No se deu conta do desastre iminente. Quando ouviu o barulho do gelo se quebrando  sua volta era tarde demais.
O gelo de repente rangeu sob seus ps, o som se espalhando rapidamente e em todas as direes. Um segundo depois havia muita gua gelada em torno, e antes que ela pudesse fazer mais do que virar-se em pnico em direo a ilha, se viu afundando.
Houve tempo apenas para um pensamento desesperado e terrvel.
No posso morrer! No posso deixar Jane sem me! Sou a me dela! Quero ser a me dela! J perdi seis meses preciosos de sua vida...
Mas Connor a vira. A ouvira descer a escada. Deixava a cozinha justamente quando ela saa de casa. Correu para a janela e a localizou indo em direo ao lago.
Qualquer pessoa que regularmente vinha para o lago Diamond no inverno, sabia que naquele local, o gelo que se formava sobre a superfcie da gua no era seguro.
Aps o degelo da semana anterior, levaria um bom tempo e muita neve para torn-lo mais seguro, mesmo para algum leve como Allie.
E ela desconhecia aquele fato.
Connor desceu o mais rpido que pde os quatro degraus do terrao, o ferimento na perna o atormentando. Mas isso no o impediria de correr, embora soubesse quais seriam as consequncias disso.
 Estou indo, Allie!
Allie ouviu a voz, um grito urgente soando atravs da paisagem gelada, e de perto.
Connor devia t-la visto antes de cair, porque no havia como ele pudesse chegar to rpido. Apenas um minuto, talvez menos... se passara desde que ela cara.
Lutando contra a correnteza gelada que parecia querer arrast-la para o fundo, Allie dificilmente teria tempo de entender o que acontecia.
Gonnor agora estava estendido sobre a superfcie congelada do lago, no muito perto dela, e algo vinha deslizando em sua direo, seguido de uma corda. Uma das extremidades da corda seguras pela mo forte, a outra amarrada ao... ao tren! O mesmo tren que eles usaram naquela manh, Allie notou quando o alcanou.
	Agarre isso  ordenou Connor.  Estenda os braos e agarre-o. Mas no tente subir nele, seno voc quebrar a borda do gelo. No posso chegar mais perto.
	Est bem!
Mesmo sua voz ao responder parecia congelada, e suas mandbulas estavam duras de frio. Allie mal conseguia falar, mas entendeu o que Connor pretendia fazer. Ela precisava agarrar-se ao tren e tentar espalhar o peso do corpo. Precisava se manter o mais perto possvel da superfcie para que Gonnor pudesse pux-la para onde o gelo era mais espesso.
Ela assim o fez, e Connor comeou a pux-la, lentamente. O gelo continuou quebrando, parecendo zombar dela. No entanto agora, Connor j conseguia pux-la um pouco mais rpido.
No momento em que Allie o alcanou, ele a puxou para fora e rapidamente a levou para um lugar mais seguro.
Deixou o tren onde ele caiu e abraou-a.
 Voc est toda molhada, e gelada, mas no h tempo para tirar suas roupas. E pelo menos, abraando-a, voc no perder calor corporal.
Ele falava enquanto a erguia nos braos. Allie no protestou. Sabia que suas pernas no a levariam para casa.
A caminhada atravs da neve profunda era constante, porm, desequilibrada, e aps um minuto, Allie ouviu Connor gemer baixinho, cada vez que seu peso caa sobre a perna esquerda. Ento se deu conta de que a caminhada forava o ferimento em sua perna, mas no havia o que ela pudesse fazer para evitar isso.
A terrvel sensao de frio parecia ter diminudo, mas no porque ela estava mais aquecida, mas porque seu corpo parara de registrar as sensaes. Allie ento entendeu, um pouco confusa, aquilo que Connor j entendera. Se ela no fosse devidamente aquecida, e logo, a queda no lago congelado poderia ser fatal.
O processo foi lento e doloroso. Connor precisou despi-la como se ela fosse uma criana, perto do fogo, mas nem tanto. Muito calor de uma vez, poderia ser perigoso. Allie estava por demais fraca e esgotada para apreciar seus cuidados. E no se importou com o fato de ele precisar despi-la, ver sua pele nua. Que importncia tinha isso quando se tratava de salvar sua vida?
Connor ento deixou-a enrolada no cobertor, alertando-a para o perigo de tentar se aquecer depressa demais no calor radiante do fogo na lareira. Foi pegar roupas secas para vesti-la, incluindo um pesado suter dele prprio.
Allie ento comeou a sentir os ps e as mos, que doam e formigavam enquanto as terminaes nervosas reviviam.
Quando mais tarde Connor lhe trouxe chocolate quente para ajudar a aquec-la, Allie no foi capaz de segurar a caneca. Ele precisou ajud-la.
Passaram-se vinte minutos at que ela conseguisse falar, e ento, as palavras escaparam de seus lbios dormente:.
	Lamento muito, Connor... Me desculpe!
	No precisa se desculpar... Tambm sou culpado. No a alertei sobre o gelo, no avisei que no seria seguro. Se eu no a tivesse visto antes que casse...
 Voc viu?
Ele assentiu.
 Estava bem atrs de voc, esperando que acontecesse, indo o mais rpido que podia. A chamei, mas com aquele seu chapu enterrado na cabea voc no podia ter ouvido.  Ele massageava a prpria coxa enquanto falava.
	Sua perna... Eu sinto muito.
	No  nada. No incomodar por muito tempo.  Ele ento continuou a contar:  Voc parecia estar fugindo do demnio. Ento, quando caiu, eu j alcanara um ponto que no me atreveria a ultrapassar. Voc no percebeu o gelo fino?
	O sol batia em meu rosto, e na verdade, eu no estava pensando no gelo.
	Eu devia ter avisado  repetiu ele.  Mas que diabos voc pretendia fazer?
	Queria descobrir se o caminho para aquelas casas fora limpo, para eu poder ir at l e perguntar se o nibus que voc mencionou de fato passava pela estrada perto dali.
	Voc no acha que eu teria sugerido o nibus, se houvesse alguma possibilidade?  perguntou ele, calmamente, mais comedido do que era necessrio. Ela merecia um bom sermo.  Para se chegar aquelas casas, no inverno,  preciso dar a volta. O caminho at l  ermo, e uns bons quilmetros de densa floresta.
	Connor, me desculpe... Fiz isso sem pensar nas consequncias  admitiu ela.  Julguei que o plano fosse brilhante, mas...
	Creio que sei porque voc fez isso  disse ele, lentamente.  Preciso me desculpar por ter tirado vantagem do fato...
	Esquea. Voc no fez isso. Foi mtuo. Mas no significa que eu pretenda permitir que torne a acontecer. Neste momento, no tenho certeza de nada quanto a minha vida.
	Quanto a minha tampouco  Connor balanou a cabea e ento confessou:  H muitas coisas das quais no estou certo... sobre o que fazer, sobre que caminho tomar...
	Mas isso no deteria a maioria dos homens  apontou ela.
	Ento, eu fico feliz por eles. Mas a mim detm. No estou certo se ficarei na Filadlfia por muito mais tempo, e no quero comear algo que no possa terminar.
Ela assentiu, lentamente. Connor dissera apenas umas poucas palavras, mas elas revelaram muito a respeito do homem ali to perto dela, mantendo-a confortavelmente aquecida com o prprio calor.
 Quer um pouco de sopa?  ofereceu ele, e Allie assentiu, grata.
No levou muito tempo para ele abrir a lata e esquentar a sopa no microondas. Retornou  sala com as duas canecas cheias da sopa fumegante. Conseguindo segurar a caneca, Allie comeou a se sentir viva outra vez, at ouvir Jane comear a chorar no quarto l em cima.
Ento a realidade assaltou-a, do mesmo modo que a assaltara no lago, ela arriscara a prpria vida. No podia ter feito isso.
Agora havia Jane.
 Como pude fazer tal coisa, Connor? Como pude ser to insensata? Se voc no estivesse atento, se no tivesse chegado a tempo...
Ela afastou o cobertor e largou a caneca sobre a mesinha. Sua voz era um sussurro.
 Vou busc-la. Como pude deix-la? Como pude arriscar minha vida desse modo? Eu no tinha esse direito.
Lgrimas amargas rolavam de seus olhos, cegando-a e Allie no percebeu quando Connor se moveu, notou apenas quando ele pegou seu brao.
 Espere! Afinal, qual  o segredo envolvendo Jane? Voc precisa me contar, Allie. Eu mereo isso, no acha? Depois de tudo o que passamos...
Allie apenas assentiu.
	Jane  sua filha, no ? Comecei a suspeitar que fosse esta manh... S pode ser isso. No vejo outra razo para voc se sentir desse modo. Ainda assim, no a tem com voc. A entregou a Karen, para que a criasse. Talvez seja disso que esteja fugindo, em primeiro lugar, da enormidade disso, no de mim, e do beijo que trocamos.
	Sim, Jane  minha filha  Aquela era a primeira vez que ela confessava isso a algum.  Jane  minha, e eu ainda no sei o que fazer a esse respeito.

CAPTULO V

No quer conversar, Allie?  perguntou Connor.
As palavras eram lentas, suaves, mas no uma sugesto.
Eram uma ordem.
Connor merecia uma explicao. Salvar a vida de uma pessoa dava certos direitos ao seu salvador, m primeiro lugar, o direito de entender como ela ora capaz de tamanha insensatez. Claro que ele teria sugerido partirem, se fosse possvel. Pensando melhor agora, parecia bvio.
Allie entendia agora que Jane sempre fora o mago da questo, no o beijo de Connor, e bem menos a preocupao com as fotografias para a capa do livro.
Allie trouxera Jane para a sala, e de imediato ela parara de chorar. Encontrava-se agora entretida com seus brinquedos, no cho, sobre o tapete. Aos olhos de Allie, ela era a criana mais linda do mundo.
 No quer conversar, Allie?  ela imitou Connor, desviando o olhar do beb.  O que o faz pensar ter esse direito?  esbravejou, como se no tivesse acabado de reconhecer que ele tinha todo o direito a uma explicao.
Quando Connor deixou de lado aquele direito, e mencionou outras razes pelas quais ela deveria falar, Allie no ficou surpresa.
 Sou o nico aqui, e creio que voc est pronta para falar. Sei que aconteceu algo muito grave, algo que deixou seu corao partido em mil pedaos.
De fato. A verdade sobre o seu passado e as dvidas quanto ao seu futuro fervilhavam dentro dela, prontas para transbordar. E no se importava que Connor fosse a pessoa a ouvir.
Allie ento comeou a falar sobre Jerry Purcell, ex-funcionrio da emissora que Allie conheceu quando comeou a trabalhar nela h dois anos. Ela jamais o chamaria de amigo, e no sabia como cham-lo agora. Recusava-se a cham-lo de pai de Jane, embora, sem dvida alguma ele o fosse.
Jerry costumava ser uma pessoa suficientemente agradvel, do tipo que jamais esquecia do aniversrio de algum. Algumas vezes mostrava-se alegre e divertido, em outras, extremamente mal-humorado. E, mesmo sendo esforado, jamais fora um vencedor.
Embora jamais tivesse tentado se insinuar perante Allie, pois era casado, ela no ficou surpresa quando, naquela noite de final de outubro, ele a procurou em seu apartamento.
Precisava conversar com algum, alegara.
Talvez de fato precisasse de um ombro amigo, pensou ela, e o ouviu, solidria. Soube ento que Jerry no somente estava  beira do divrcio, o que j era suficientemente difcil, mas tambm perdera o emprego na emissora. Allie jamais soube porqu. Jerry nada dissera na poca, e mais tarde, ela no procurou saber atravs de seus colegas de trabalho, porque ento, no suportaria ouvir falar em seu nome.
Ainda trazia vvido na memria o modo como ele a agarrara e tentara beij-la aps terem conversado. Mas Allie dera um jeito de escapar de seus braos, diplomaticamente dizendo algo sobre o adiantado da hora e que esperava que a conversa o tivesse ajudado, e que seria melhor que ele fosse para casa. Jerry estivera bebendo antes de chegar, Allie notara, mas aquilo fora h duas horas, e agora ele devia estar mais ou menos sbrio.
Mas no sbrio o suficiente, de acordo com ele. Pediu que ela fizesse um caf forte. Allie assim o fez, e serviu uma xcara a ambos, a situao comeando a inquiet-la.
Aps tomarem caf, ele tornou a atac-la, com as mos e com a boca. Desta vez ela teria de ser dura j que Jerry no entendera o recado.
Allie ainda se lembrava do horror, das palavras dele:
"Calma, beleza... Voc precisa apenas relaxar, e ver como nos divertiremos..."
Foi aquela a sua ltima lembrana clara daquela noite.
Na manh seguinte, ao acordar com a cabea latejando e reconhecendo que fora dopada, Jerry tinha ido embora. Mas ela sabia o que devia ter acontecido. Uma mulher jamais se engana. Os inequvocos sinais de violao estavam l, e a deixaram com o estmago revirado. A conscincia daquilo que Jerry fizera encheu-a de terror.
Os dias foram passando, e ento o seu pior pesadelo foi confirmado. Fez um teste de gravidez e deu positivo. Na emissora, ningum ouvira falar de Jerry, ou soubera de seu paradeiro. Algum sugeriu que ele deixara a cidade.
Allie ento contou o ocorrido a Karen, em menores detalhes, e foi sugerido que ela tentasse encontr-lo e falasse sobre a gravidez.
Mas isso era a ltima coisa que Allie desejava fazer.
O pior momento, porm, foi quando aos cinco meses de gestao, o obstetra previu que ela teria um menino. Era impossvel se imaginar tendo um menino nos braos sem ver nele o rosto de Jerry.
Era irnico. Allie sempre reservara um lugar em seu corao para um filho homem, sempre que pensava em si mesmo como me.
Quando deu a luz  Jane, ela ainda no chegara  final concluso sobre o futuro da criana. Foi ento que Karen se ofereceu para cri-la.
 Voc sabe o quanto quero ser me. Amarei esta criana como se fosse minha. E ser a melhor soluo para todos ns.
Ento, os problemas de Allie colocaram um fim na dramtica concluso. Karen assumiu a beb e at escolheu um nome para ela.
Allie sentiu-se fraca e exausta durante meses, e ainda no se recuperara totalmente, pois costumava se cansar se no repousasse o suficiente.
 E agora, graas a Deus, Karen engravidou...  terminou ela, quase que num sussurro.   como se esse fato abrisse uma porta que eu dissera a mim mesma ser melhor que permanecesse trancada, para sempre. Nessas vinte e quatro horas com Jane, me permiti am-la, como a tenho amado sempre, sem nunca ter tido coragem de admitir, nem a mim mesma. E meu corao se mantm dizendo que poderei t-la de volta. Que ela  minha. S que isso no  verdade... ?
Allie por fim levantou os olhos para fit-lo, a voz suplicante. Por que esperava que Connor tivesse uma resposta, ela no sabia.
E Connor no tinha uma resposta, apenas uma pergunta, nua e crua:
	Por que acha que no seja verdade?
	Por qu? Mas isso  bvio!
	Diga, Allie. Quero saber.
	Porque sempre que me permito pensar no pai dela, apenas por um instante, o dio e a revolta me sufocam. Mesmo durante a gravidez, senti muito dio, muita revolta.
	Mas esse dio e essa revolta nunca foram em relao a ela. Foi, Allie?
Allie pensou um pouco antes de responder, embora no precisasse fazer isso.
	No, claro que no.
	Eu tinha certeza disso.
Ambos tinham. Foi ento que, como se respondesse  uma deixa, Jane abriu a boca, estendeu os braos para Allie, desempenhando sua melhor fala:
	Ahhh! Ma!  E ento sorriu de modo radiante.
	Oh, minha querida!  exclamou Allie, as lgrimas inundando-lhe os olhos. Correu para Jane e abraou-a.  Oh, meu amor, minha preciosidade...
	Jane  Jane,  somente ela mesma, Allie  disse Connor. Algumas pessoas no percebem isso em relao aos bebs. Talvez isso no seja to bvio at que se passe algum tempo com eles. Os bebs no so amados por serem um "bocadinho" de outras pessoas. Se seus cabelos so iguais ao da me, o nariz, igual ao do pai, so simples tendncias. Os bebs so pessoas, e so amados puramente por isso.
Allie no respondeu, e Connor no esperava que ela fizesse isso. Ele apenas recostou-se para trs na poltrona e a observou com Jane, em silncio.
Por fim, Allie criou coragem para fazer a pergunta que tanto lhe afligia:
	Como poderei t-la de volta?
	Karen concordar que fique com ela. Voc mesma disse isso.
	Sim, eu sei. Mas ela tem sido sua me desde que Jane nasceu. E se essa brusca mudana em seu universo for prejudicial? E se Karen no conseguir lidar com a perda? Ela ama Jane, tanto quanto eu, e perd-la agora...
	Ei, voc planeja desaparecer com ela no outro lado do mundo?  brincou ele.  Ser que Karen e Jane nunca mais tornaro se ver?
	No brinque, Connor.
	Ento, porque pensar nesses detalhes agora? Voc tomou uma deciso. No basta por hoje? As duas, Karen e Jane tero muito tempo para se adaptarem  nova situao. Vocs tero vrias opes, mas pense nelas mais tarde.
Allie suspirou.
	Voc tem razo, Connor, mais uma vez. Obrigada.  exatamente o que farei.
	Algumas vezes ajuda ter a opinio de algum no envolvido  disse ele.
Connor notou a relutncia na prpria voz. Aquelas palavras no soaram bem. No envolvido. Ele comeava a ter uma vaga idia de que j estava envolvido, seriamente envolvido. Em to pouco tempo ele se apegara profundamente a A.J. Todd e  sua filhinha, bem mais do que ele julgava ser possvel em apenas vinte e quatro horas.
Mas ele no queria isso. No da maneira como vinha se sentindo ultimamente.
Observou Allie. Ela olhava em sua direo, mas no parecia enxerg-lo. Via apenas aquilo que ela formava em sua imaginao, analisando tudo minuciosamente atravs da mente, como se analisasse um lbum de fotografias, decidindo qual delas conservar, e qual descartar.
Havia algo nela, uma combinao de fora e vulnerabilidade que o emocionava. Era como se a conhecesse como conhecia os prprios irmos. Connor tinha certeza de que Allie enfrentaria qualquer desafio, com imparcialidade, e ficaria mais forte aps cada balde de gua fria que o destino jogasse em seu rosto.
Connor sentiu uma imensa, quase que irresistvel, necessidade de intervir, de ajud-la, mas estava ciente do quanto andava inquieto ultimamente, experimentando aquela familiar sensao de que algo estava faltando, que ele tambm tinha necessidades, coisas a provar a si mesmo.
No passado, essa sensao o afastara dos laos calorosos da famlia na Filadlfia e o lanara em busca de uma srie de aventuras que quase o levaram  destruio.
Mas agora, caso renunciasse  sociedade com Patrick e com Tom na empresa de software, o que mais ele poderia fazer? Trabalhar em um circo como domador de lees? Sair  procura de tesouros enterrados?
Nada do que pensava em fazer o atraa, tampouco viver aquela vida itinerante de antes, dormindo em hotis baratos, comendo mal... Queria de fato voltar quela vida solitria? Jamais.
Ainda assim, a sensao de algo estar faltando permanecia. Estava feliz trabalhando com os irmos, portanto no achava que fosse isso. No conseguia entender o que era, sabia apenas que no se tratava do mesmo sentimento de antes, decidiu ele, agora era mais forte.
Mas havia algo claro ali. Qualquer espcie de envolvimento com Allie estava fora de questo. Mesmo em outras circunstncias, Allie no merecia o tratamento "ame-me e esquea-me" largamente adotado atualmente.
Como Karen o alertara, Allie passara por maus pedaos, e continuava passando, algo nela parecia gritar por seu socorro e apoio. No entanto, no p em que estavam as coisas, seria totalmente injusto alimentar suas esperanas.
Precisava ignorar o modo como seu corpo reagia estando perto dela, o modo como suas mos tinham de vontade de tocar naqueles cabelos macios. Teria de ignorar tambm a imagem que teimava em permanecer em sua mente, dela nua, o corpo molhado aps ter cado nas guas geladas do lago.
Connor se movimentou, e alongou-se, entendendo porque cada msculo de seu corpo parecia to rgido. Nada tinha a ver com o esforo que precisara fazer para retir-la do lago e carreg-la para casa. Nada tinha a ver com a dor na perna atormentando-o. Era a luta travada entre seu crebro e seus traioeiros hormnios masculinos, que o faziam sofrer como agora.
	Voc no terminou sua sopa  disse ele, interrompendo o silncio e levantando-se.
	No... eu me distra.
	De qualquer modo, voc precisa comer algo mais substancial. So quase trs horas.
	Trs horas? No pode ser. Quer dizer que estamos aqui desde...
	Desde a uma hora. Bem, vou preparar os hambrgueres e a sopinha de Jane. Ela comea a se inquietar.
	Posso fazer isso. Estou aquecida agora, e me sentindo bem.
Embora fisicamente esgotada, concluiu ele, observando-a hesitar antes de se pr em p. No devia lhe ocorrer, mas aps o susto que levara, ela ainda tinha adrenalina ardendo em seu sistema, fsico e emocional. A qualquer momento ela apagaria, como uma luz. Antes que acontecesse, ela precisava comer.
Passaram a prxima hora apreciando o calor na cozinha, enquanto Jane comia sua sopa de legumes, o cheiro de hambrguer impregnando o ar.
Aps comer, Jane estava pronta para dormir.
Connor a colocou no bero, porque sabia que Allie a qualquer momento tambm cairia no sono.
s sete horas, Karen ligou, colocando Connor ao par da situao.
 Eu estou bem. Precisei alugar um carro porque a minivan dever ficar na oficina. Tentei ligar no meio da manh, e mais duas vezes em seguida, mas no os encontrei. Pelo visto, devem ter sado para brincar na neve.
	Mais ou menos isso  disse Connor, no querendo assust-la, falando-lhe sobre o acidente com Allie.
	Deixei vrios recados na secretria eletrnica. Por que no ligaram de volta? Fiquei preocupada.
	Desculpe, mas estivemos ocupados e esquecemos de verificar as mensagens.
	Ocupados? Fazendo o qu?
	Mais tarde eu conto, Karen.
	Jane est bem?
 Ela est tima...  Connor hesitou por um instante, ento decidiu usar de franqueza:  Mas, Karen, se esse fim de semana to complicado que voc arranjou teve o intuito de unir me e filha, ento acho que voc foi bem-sucedida.
Karen engoliu em seco.
	O que houve, Connor?
	O que eventualmente acabaria acontecendo. Allie concluiu que ama Jane e a forma como foi concebida no faz a menor diferena.
	Ela disse isso a voc?
	Disse, entre outras coisas. Disse inclusive que voc est grvida. Meus parabns.
	Obrigada... Eu e John estamos radiantes...  a voz dela suavizou.  Posso falar com minha irm?
	Desculpe, mas ela est no banheiro. Acabamos de jantar. Pedirei para que lhe ligue de volta.
	Pensando bem, eu prefiro no discutir esse assunto pelo telefone. A ltima coisa que quero fazer  pression-la. De qualquer modo, se o tempo permitir estarei com vocs  noite.
 Estaremos a espera. Mas tenha cuidado...
Connor desligou o telefone um minuto depois.
Quando Allie apareceu, sua reao no o surpreendeu ao saber que Karen ligara.
	No vou ligar de volta, a no ser que ela tenha pedido. Eu... bem, ainda no estou pronta para falar sobre o assunto. Alm disso, estou caindo de sono.
	 de sono que voc precisa...  Connor se aproximou do sof e observou seus olhos sonolentos.  Consegue chegar l em cima sozinha?
	Sim, creio que sim... Seria abusar demais querer que me carregasse escada acima duas vezes no mesmo dia. E no quero abrir tal precedente.
	De fato, pode ser perigoso  brincou ele.
Allie no respondeu, mas ambos sentiram a qumica vibrando, permanecendo no ar por um tempo que parecia impossvel.
Connor permitiu que ela se fosse. Pouco depois ouviu o barulho da gua no chuveiro, os passos dela ecoando pelo quarto, e por fim, o silncio.
Esperou at ter certeza de que ela estava dormindo, ento colocou o casaco, as luvas e o chapu e saiu de casa. Passou a prxima hora retirando a neve da trilha entre o lago e a estrada com o trator. Karen chegaria naquela noite.
Como uma variante do velho banho frio, aquele trabalho mostrou-se ser quase que intil. No acabou com aquele desejo insatisfeito, mas pelo menos, serviu para o seu propsito.
	Pode deixar, Allie. Estou cuidando dela.
	Karen! Quando voc chegou?  perguntou Allie.
Eram quase sete horas da manh e Allie acordara automaticamente ao ouvir Jane. Correu para a porta de comunicao entre os dois quartos. Jane dormira por quase doze horas seguidas. Allie devia ter dormido mais ou menos isso.
 Cheguei por volta das onze da noite  confirmou Karen.
Ela cuidava de Jane enquanto falava. Contou toda a sua saga desde que fora para Albany.
Sua habilidade em lidar com Jane, limp-la e trocar a fralda, para Allie, era algo desencorajador. Um estranho no hesitaria em identific-la como sendo a me da criana, e Allie a tia. Ela no pde evitar as dvidas.
Ser que conseguirei? Certamente no ser fcil. Estarei agindo direito?
Houve um movimento no corredor, e em seguida, l estava Connor, vestindo seu costumeiro jeans e suter. Devia ter acabado de sair do banho, pois seus cabelos ainda estavam molhados e seu rosto, recm-barbeado.
A aura de energia que emanava dele transbordava da porta e se irradiava pelo aposento. Seus olhos moveram-se rapidamente de Karen a Jane e de volta a Allie.
 Bom dia  cumprimentou ele, casualmente.
Allie sorriu.
 Voc viu como eu dormi? Eu no sabia que seria capaz de dormir durante tantas horas... Onze horas seguidas  disse, embora aquilo no fosse o que a preocupava no momento.
Connor sabia o que a preocupava. Allie percebeu isso atravs da expresso de seu rosto, pelo modo como abriu a boca para falar e tornou a fechar.
V em frente, voc consegue, ele parecia dizer.
E parecia dizer outra coisa, algo que a fez cruzar os braos diante do peito. O pijama de flanela estampado com pequenas flores azuis no era exatamente a mais sedutora das roupas de dormir, mas era capaz de revelar muito do corpo sob ele.
Por que reagir dessa maneira aquele homem quando todas as clulas racionais de seu crebro diziam para ela no fazer isso?
	Panquecas ou waffles?  Connor quis saber, tranquilizando-a.
	Voc realmente gosta de comer pela manh  disse Allie. O assunto comida surgira como um alvio.  S quero ver quanto eu engordei com todas as calorias que venho ingerindo desde que cheguei aqui.
	Aps o que houve ontem, voc.precisa recuperar as energias  Connor deixou escapar sem querer.

	Ontem? O que houve ontem?  Karen quis saber.  Ah,  verdade. Vocs fotografaram. Graas a Deus eu consegui chegar a tempo para fazer isso.
	Adoro sua f em nossa total incompetncia como fotgrafos  brincou Connor.
	Oh, desculpe, eu no quis...
	No, voc est absolutamente certa  disse Allie.  No que se refere a arte de fotografar, ns somos um desastre.
	Eu no sei no...  defendeu Connor.  Acho que pelo menos uma ou duas fotos ficaram excelentes.
Allie notou o brilho nos olhos azuis e desviou o olhar.
 Isso ns veremos  disse Karen.  Bem, que tal comermos alguma coisa e comearmos a trabalhar?
Karen pegou Jane do bero, ergueu-a no alto e a trouxe de volta, para beij-la. Jane adorou aquilo.
Allie as observava, sem flego.
Estou com cime. Da minha prpria irm com minha filha. Detesto isso.
Connor observou as duas por um instante e em seguida se foi. Allie sabia que ele estava lhes dando a oportunidade para conversarem a ss.
	Sinto muito, Allie  disse Karen, desistindo de agir como se nada estivesse acontecendo.  Sei que voc cuidou de Jane todo esse tempo, e fez um bom trabalho. E agora eu chego aqui e a reclamo como se nada daquilo contasse.
	Est tudo bem, Karen.
	No, no est. Eu de fato sinto muito.  Ela estava sendo sincera e Allie sabia disso.
A ltima coisa que Jane precisava era que sua me e sua tia se desentendessem por sua causa.
Karen apenas sorriu. Depois, muito lentamente, ela estendeu o beb a Allie, que o pegou, lutando contra o n que sentia na garganta.
 Ei, Jane, vamos descer, e tomar o seu leitinho?  disse ela, abraando a filha.
Ento, virou-se e afastou-se pelo corredor.

CAPTULO VI

Assim est bem. Agora, olhe para Allie e para o beb  comandava Karen, atrs da cmera.  Voc est preocupado com elas. Lembre-se que esta mulher e sua filha se encontram em zona de combate. Ela enterrou dois irmos e o marido, e alm disso, existe um mistrio em torno dela e do beb.
	Entendi  disse Connor.
	Voc no est convencido de que ela seja a pessoa que alega ser. Allie, voc neste momento est pensando se ter coragem de contar a verdade a ele. No sabe que ele est observando-a. No. Nada de fazer caretas. Tente pensar em como ela deve se sentir e a expresso vir naturalmente ao seu rosto. Isso. Melhorou. Vocs esto comeando a relaxar.
	Quem disse que isso seria divertido?  queixou-se Connor.  Nunca pensei que modelos trabalhassem tanto.
	Pare de reclamar, Connor. Terminamos aqui fora. Vamos entrar e trocar de roupa  avisou Karen.  Faltam apenas as fotos na lareira.
	Ficar bom? A histria no se passa dentro de uma cabana no meio da floresta?  perguntou Allie.
 , mas eu poderei mudar alguns detalhes  explicou Karen  Precisarei apenas captar o jogo de luz e de sombras que a claridade do fogo far em seus rostos.
Levou uma hora para que ela obtivesse a luz e as sombras que queria. Ento, Jane precisou dormir e Allie achou melhor que fizessem uma pausa.
	Coloque-a no bero  disse Karen.  Vou precisar apenas de vocs dois. No livro, esta cena acontece tarde da noite. Pegue aquela arma, Allie. Sei que parece ser de plstico, mas na foto no parecer. Agora, voc contar a ele a verdade sobre seu marido. E, embora vocs dois possam ser inimigos, no conseguem esconder o que sentem em relao um ao outro.
	Como?!  Allie no pde evitar o tom alarmado.  Voc no pediu para que eu pegasse a arma?
	Isso, e voc est segurando-a contra o peito  explicou Karen, com pacincia.  Mas  bvio que ele est prestes a beij-la. Ou melhor, voc est prestes a beij-lo. Na verdade  a herona, Savannah, que dar o primeiro passo. Ela  a experiente, lembre-se. O heri, Brady,  virgem.
	Eu sou?  perguntou Connor.
	Neste momento,   respondeu Karen.
	No me lembro de voc ter dito isso.
 Connor? Apenas faa o que estou pedindo, est bem?
Karen olhou-o por um instante antes de continuar.
 Levante a arma, Allie. Connor, no faa cara de assustado! Ela pode parecer a mais corajosa, mas na verdade est mais assustada do que voc.
	Certo  disseram ambos.
	Agora aproxime o rosto do dele, Allie  ordenou Karen.
Allie assim fez, embora com relutncia.
	Mais perto  pediu Karen.
	Devo me mexer?  Connor quis saber.

	No, fique exatamente onde est. Voc est perfeito. Allie, por favor...
	Est bem!  Allie assim o fez e sentiu-se banhada pela luz dos olhos dele.
	timo! Mais alguns centmetros.  tudo o que quero.
Mas no  o que eu quero, pensou Allie, desesperada.
 Grandes ombros!  disse Karen, fotografando.
Os ombros de Allie estavam nus, e o vestido de poca que ela usava era um nmero maior. Karen disse que era bom que o vestido fosse grande e escorregasse de seus ombros. Aquilo acrescentava a Allie uma aura de vulnerabilidade perfeita para a personagem do livro.
	Agora, Connor, abrace-a.
	O vestido est caindo...
	Connor, disfarce e veja se consegue segur-lo. Karen continuou fotografando-os. Allie sentia os dedos de Connor nos seus ombros, e a prpria respirao nos lbios.
	Incline-se para frente um pouquinho, Allie... Assim. Agora para trs... Beije-o agora.
	Mas...
	Por favor...  implorou Karen.
	Qual  o problema, Allie. Vamos acabar logo com isso  queixou-se Connor. E beijou-a antes que ela pudesse dizer alguma coisa.
Pela primeira vez, Karen nada disse, e at mesmo o barulho da cmera pareceu mais silencioso e menos obstrutor. Allie fechou os olhos e tudo o que conseguia sentir eram os dedos de Connor firmes e calorosos em seus ombros, e a boca suavemente pressionando a dela, suas coxas contra o cetim do vestido e seu outro brao pressionando suas costas.
Seus lbios hesitavam no incio. Connor a abraava suavemente, ligeiramente consciente, como Allie estava. Mas ento aquilo foi mudando lentamente, como a nvoa em uma manh invernal, deixando atrs de si apenas sensao.
Os lbios de Connor eram ao mesmo tempo firmes, suaves, e calorosos. Seus longos clios roaram o rosto delicado quando ele quebrou o contato e moveu a cabea para o lado. Os lbios de Allie tremeram e se entreabriram quando ela arfou levemente e depois suspirou.
Quando se voltaram para Karen, ela se encontrava a cerca de um metro da cmera e havia uma expresso estranha em seu rosto, satisfao misturada com surpresa.
 Terminou o filme  disse ela.  Mas basta por hoje. Eu diria que j podemos encerrar a seo de fotos.
Connor passou a mo nos cabelos e recuou um passo. Ele parecia perplexo.
	Fazemos um belo par, no fazemos?
	Vocs foram esplndidos, espantosos.
	Ento, no precisaremos repetir... nenhuma das fotos?
Aquilo era mesmo pesar na voz dele?
 Espero que no  disse Karen.  Antes de comear a fotografar aqui dentro, eu tencionava tirar mais algumas fotos l fora, porque dariam aquele toque ermo to crucial a histria. As cenas perto da lareira seriam apenas fotos extras, para o caso de precisarmos delas. Mas creio que estou comeando a gostar mais delas do que das outras. Deixe-me ver...
Ela pegou o lpis e o bloco de anotaes que mantinha consigo e rabiscou algumas idias, traou linhas e formas que no faziam o menor sentido a Allie.
Na verdade, naquele momento, nada fazia sentido a Allie. Ela continuava perplexa com o poder do beijo de Connor. Sabia que, assim como ela, ele no queria beij-la. Apesar disso, o beijo os descontrolara.
Eles partilharam da mesma razo para no querer que o beijo importasse. Era a cristalizao de tudo o que Allie comeava a sentir em relao a ele. A ligao, a f to profunda que ela julgara no ser possvel em to pouco tempo.
Um despertar de sentidos que diziam que ela no perdera totalmente a habilidade de sentir aquela qumica por um homem, mesmo quando entrava em pnico diante do pensamento de ir em frente com aquilo. Uma sensao estranha... como se o beijo fosse apenas o comeo.
E nenhum beijo deveria ter aquele poder, especialmente tratando-se de uma mulher que passava por uma vital transformao em sua vida.
	Jane acordou... estou ouvindo-a  avisou Karen.  Voc no quer ir v-la, Allie?
	Na verdade, se voc no se importa, tenho uma pergunta a fazer a Connor.
 Claro.  Com uma obedincia incomum, Karen os deixou e subiu a escada.
Allie mal esperou que ela desaparecesse para virar-se para Connor.
	Voc enlouqueceu? Por que me beijou daquele modo, como se fosse real?
	Porque era.
	No pode ser. Isso seria insensatez.
	Ei  protestou ele.  Estou simplesmente relatando um fato. Diga que estou errado. Diga que para voc no foi real.
	No posso.
	Eu achava mesmo que no.
	No seja to... to...  acusou Allie.
	Leviano? Apenas concordei com voc, Allie. E tambm concordarei com aquilo que voc dir a seguir.
	O que acha que eu direi?
	Que pretende fingir que nada aconteceu. Que h mais dvidas em sua cabea do que h mosquitos em Minnesota, em junho. Que se envolver com um homem agora seria mais desastroso do que sua queda naquele lago gelado. No  mais ou menos isso que pretende dizer?
	No, com tal nvel de fluncia, no com minhas emoes estando no caos que esto agora. Mas  o que eu deveria dizer.
	timo. Ento estamos de acordo, porque para mim, a hora tambm  um total desastre. Isso torna as coisas mais fceis.
 Que coisas? Connor deu de ombros.
 Em relao a voc, todas as coisas.
Allie tambm sentia aquilo.
Karen desceu a escada com Jane, que parecia no estar totalmente acordada. Allie desejou peg-la no colo, beij-la e apoiar aquela cabecinha em seu ombro. Mas, como sempre, Jane parecia por demais confortvel nos braos de Karen. Connor precisou se conter para no estender os braos para o beb.
	Ele respondeu?  perguntou Karen.
	Quem respondeu?  perguntou Allie.
	Connor. Sua pergunta.
	Oh.  Ela olhou para Connor e sentiu o rosto arder.  Sim, acho que sim. Com todas as letras.
Houve um breve silncio, enquanto Karen assentia.
 Creio que devemos comer alguma coisa antes de nos aprontar para a partida, isso se quisermos chegar na Filadlfia em uma hora decente  disse Connor.
Foi como se uma bola de neve tivesse acertado Allie no peito.
	J?  perguntou ela, em pnico.
	Sim. Precisamos devolver o carro alugado no aeroporto e isso pelo visto acrescentar pelo menos uma hora  viagem de volta  explicou ele.  Estou assumindo que vocs trs viajaro de volta comigo.
	No tem problema, no , Connor?  perguntou Karen.
	Nenhum, mas devemos nos aprontar.  Ele se dirigia a Karen, porm olhava para Allie.
	Claro. Eu esqueci que precisamos devolver o carro alugado  disse Allie.
Tantas coisas aconteceram naquele lugar isolado em apenas um dia e meio... Foi como estar em um mundo mgico e a parte. Em contraste, Filadlfia seria a realidade, o lugar onde ela daria o novo passo em sua vida.
No para fazer isso. No estou pronta. Nem para dizer a Karen.
Connor parecia ter o poder de ler sua mente.
 Allie tem algo para dizer a voc, Karen, antes de comearem a arrumar as malas.
Ele no hesitou diante do olhar irado que Allie lhe lanou, e tampouco permitiu que ela escapasse com aquele simples balanar de cabea.
	No precisa ser agora.
	Agora, Allie. De qualquer modo, acha que ela ainda no sabe?
	Claro que sei  disse Karen.  Soube antes mesmo de virmos para c.
	Ento, voc planejou isso?  disse Allie, em um tom acusador.
	No planejei nada, Allie. Qualquer pessoa com um corao saberia. Voc a quer de volta.
Allie suspirou. Karen j sabia. Aquilo tornava tudo bem mais fcil.
	Sim, quero muito isso  admitiu ela.  Mas no tinha me dado conta que esse desejo era to forte! Mas ao mesmo tempo, no sei como fazer, Karen, porque sei o quanto ser difcil para todos ns.
	Voc acha que eu no sei?  disse Karen. Ela entregou Jane a Connor, sem nem mesmo olhar para ele e abraou Allie.  Voc no apenas levar Jane para sua casa, mas tambm seu bero, sua sacola de fraldas e tudo o mais.
	Eu sei disso, mas...
	No, voc no sabe. Por isso eu quero que se mude para a minha casa e more conosco durante o tempo que precisar para se adaptar  sua nova vida.
	Com voc e John?
O convite de Karen parecia perfeito para o incio de seu relacionamento me e filha com Jane, mas s que Connor vivia na casa vizinha a deles. T-lo to perto era uma complicao a mais, uma que Allie no gostaria de ter.

CAPTULO VII

Connor estava a caminho de casa, de volta do trabalho, e praguejou baixinho ao ligar o rdio do carro na WPYR. Esperava ouvir a voz de Allie, mas em vez disso, ouviu uma voz masculina. No queria ouvir aquela voz. Queria ouvir Allie. Infelizmente, ela no trabalhava aquela hora.
Eles no tornaram a se ver depois daquele fim de semana no lago Diamond, embora h onze dias ela morasse na casa ao lado.
E por que aquilo teria de ser um problema?, questionou-se ao trocar de pista e parar no farol vermelho. No havia decidido que seria melhor afastar-se?
Allie no precisa de mim. Ela tem Jane com que se preocupar, e com as mudanas drsticas que a filha causar em seu mundo. Tambm no preciso dela. Preciso  descobrir o que tanto me inquieta. O fato de Allie no ter aparecido demonstra que ela tambm sabe que seria um desastre. Concordo plenamente com isso. Sou um homem racional. Sei perfeitamente que pelo menos agora, no d, e sou perfeitamente capaz de lidar com isso.
Ento, por que seu corao disparou ao chegar em casa e ver o que estava acontecendo na casa vizinha?
John, o marido de Karen, colocava duas maletas dentro de um txi parado diante da casa deles. Usando um casaco vermelho, Karen entrou no banco de trs do veculo. Deviam estar de sada para um longo fim de semana.
Sem Jane?
Quando o txi passou por ele, Karen o viu e acenou, seu sorriso no alcanava-lhe os olhos. Ele soube que aquela viagem era um passo corajoso para Karen, John e Allie. Agora o beb pertencia a Allie. John era um homem sereno, firme, e devotado. O fato de precisar entregar Jane de volta  me biolgica tambm devia estar sendo difcil para ele. Sem dvida, o fim de semana fora deliberadamente planejado como sendo parte da transao.
Connor acenou de volta, a mente j repleta de planos. Claro que no iria correr para a casa ao lado com um buqu de rosas vermelhas, e em seguida levar me e filha para o mais fino restaurante da Filadlfia, para um jantar  luz de velas a trs.
Mas a idia era tentadora. To tentadora que, ao entrar em casa, a primeira coisa que fez foi pegar o telefone. Discou o nmero da sua pizzaria favorita e ouviu-se pedindo. "Duas pizzas grandes, uma de mussarela e a outra, calabresa com cebola, azeitona preta e cogumelo".
A pizzaria devia estar lotada, porque ele teve vinte minutos para se arrepender de ter feito o pedido. Na hora em que a campainha da porta tocou, ele tinha decidido que guardaria a segunda pizza para comer no caf da manh.
Allie pelo visto no precisava dele, e definitivamente, no queria v-lo. Ele tinha se mantido firme naqueles onze dias, chegando at a recusar o convite para jantar de Karen no ltimo sbado, alegando j ter um compromisso inadivel com seu irmo Patrick. No fazia sentido arruinar tudo, s porque Allie e Jane estavam sozinhas em casa.
Sendo assim, ele comeu a pizza sozinho, tomou cerveja e ligou a televiso para assistir um filme, at cansar e desligar o aparelho.
Subiu para o andar superior na esperana de encontrar alguma coisa para fazer. De repente a viu. Allie se encontrava a uns vinte metros dele, andando de um lado para o outro no quarto que agora partilhava com Jane. Na noite anterior, as cortinas estavam fechadas, mas estavam abertas agora. O quarto era bem iluminado, e Jane chorava.
Bastante.
Connor podia ver pela expresso preocupada de Allie que Jane j chorava por algum tempo. Ele no podia acreditar na rapidez com que ela se adaptara ao papel de me. A viu oferecer a mamadeira, mas Jane recusou virando a cabea. Notou como Jane levava a mozinha ao ouvido esquerdo, irritada, o que o fez suspeitar do que estava acontecendo.
J vira o suficiente, decidiu. Ficar  espreita no era seu estilo. Iria at l para ver no que poderia ajudar. O que no significava que estaria se envolvendo, claro. Agora era diferente. Allie precisava dele, e era tudo.
Chegou  casa vizinha em menos de quarenta segundos, quase que junto com o entregador de pizza, e a tempo de ver Allie desajeitadamente pegar a pizza e dar o dinheiro ao rapaz. Connor e o entregador se cruzaram no porto. Allie o viu chegar e esperava  porta.
	Ol  disse ele.
	Karen e John viajaram. Passaro o fim de semana fora  disse ela, o rosto tenso.
No desperdiou palavras convidando-o para entrar, apenas se afastou para o lado para que ele entrasse. Em seguida fechou a porta.
	Desculpe-me, Connor. Pode segurar isso para mim?  Ela praticamente atirou-lhe as duas pizzas.  Entre e sente-se. Vou ver Jane.
	A ouvi chorando. No acha que ela pode estar com infeco no ouvido?
	Oh, ser isso?  O alvio vibrou em sua voz rouca.  Deve ser. Ela est chorando desde antes de Karen e John viajarem. Como no dormiu direito  tarde, julgvamos que fosse por isso. Eu disse a eles para irem tranquilos. Jane estava bem esta tarde. Essas dores de ouvido costumam aparecer repentinamente?
	Creio que sim. Comecei a desconfiar do problema quando notei que a todo o instante ela levava a mo ao ouvido.
	Voc notou?!
	Pela janela. As cortinas esto abertas.
	Por isso veio at aqui?  Seus olhos escuros encontraram os dele por um instante, e se desviaram antes que ele pudesse ler sua expresso.
Mas no foi apenas por isso, ele teve vontade de dizer. Para o diabo com essa histria de no se envolver!
O choro de Jane foi uma boa desculpa para eu ter vindo. Eu me importo com ela, com sua dor de ouvido, mas me importo mais com voc. Isso faz de mim um covarde ou um heri?
Em vez de admitir a verdade, que provavelmente a deixaria ainda mais desconfortvel do que a ele, Connor a fitou.
	Sabe o nmero do telefone do pediatra? Creio que devemos ir v-lo, se o consultrio ainda estiver aberto, ou ento, lev-la ao servio de emergncia do hospital.
	Karen deixou o nmero na sala de estar, perto do telefone. Vou cham-lo. Eu ia mesmo fazer isso.
Connor se aproximou e sentiu a testa de Jane com a palma da mo. De fato estava febril. Embora no tanto quanto ele se sentia, com o ombro roando em Allie. Ela estava por demais distrada para notar.
Ele pegou Jane de seus braos para que ela pudesse usar o telefone. Narrou ao mdico o que estava acontecendo e terminou a conversa dizendo:
 Oh, poder v-la? Agora mesmo? Que timo.
Aps desligar, Allie olhou para Connor.
 O dr. Seiken ir v-la. Est terminando uma consulta, mas esperar por ns, se formos agora.
Connor gostou da forma como Allie assumiu que ele as acompanharia ao mdico, embora ela no se desse conta do que fazia. E no conseguiu conter o sorriso quando ela no conseguiu ligar o motor do carro naquela noite fria. Jane ainda chorava, e aquilo a deixava nervosa.
	Quer que eu dirija?  ele por fim ofereceu.
	No, estou bem.
Depois de mais algumas tentativas, conseguiu ligar o carro e saram em direo ao consultrio. Aps alguns metros, Jane por fim parou de chorar. Connor perguntou:
 Sabe o endereo do consultrio?
Aquilo a fez fit-lo com surpresa e em seguida anunciar:
	No. Teremos de voltar e verificar.
	No ser necessrio. Estou com o meu celular. Ligarei para o meu pai. Ele vem lidando com a medicina familiar h muito tempo e conhece todos no ramo, ele deve saber.
Connor digitou o nmero. Seu pai atendeu no terceiro toque.
 Papai? Voc sabe me dizer onde fica o consultrio do pediatra, doutor...
Ele olhou para Allie com ar indagador, e ela disse o nome do mdico:
 Marshal Seiken, em algum lugar perto da rua Dezessete. Dezessete com Greenwillow, agora eu me lembro  forneceu Allie.
Connor passou a informao ao pai, aguardou um pouco e em seguida agradeceu.
	Obrigado, papai... No, no  nada grave. Falarei com voc mais tarde.
	Obrigada, Connor  disse Allie.
	Viu? At que posso ser til, algumas vezes.
	Ainda bem que voc est aqui, Connor. Lamento por ter estragado a sua noite. Eu nem ao menos disse por favor.
	Eu estou me queixando?
	No brinque. Eu falo srio. Estou to constrangida... Aquela pizza era para voc. Eu pretendia convid-lo, para agradeeer-lhe... Ele gemeu.
	Allison Jane Todd, voc quer parar de agradecer?
	...por tudo o que fez por mim, no Lago Diamond. Achei que merecia saber que as coisas vo bem. E meu primeiro fim de semana com Jane. Tirando esse problema com a dor de ouvido, as coisas vo indo muito bem.
 Isso no  nada... A maioria dos bebs tm dor de ouvido, Allie.
Dez minutos depois, o dr. Seiken dizia a mesma coisa, aps ter examinado ambos os ouvidos de Jane e tambm o nariz e a garganta.
Ele parecia ser um bom mdico e bastante atencioso, com mais ou menos a mesma idade do pai de Connor. Escreveu rapidamente a receita dos remdios e deu a eles algumas instrues. A parte mais difcil foi ele parecer assumir que Connor era o pai de Jane, e que era casado com Allie.
Connor quase riu das tentativas de Allie de fazer o mdico entender que eles no eram casados, e que Connor no era o pai de Jane.
No resistindo ao impulso, Connor passou o brao em torno do ombro dela e sorriu.
 Vamos logo providenciar a receita, meu bem. O dr. Seiken deve estar querendo ir para casa.
Allie se conteve at chegarem no carro. Ento explodiu:
 Por que voc fez aquilo? Por que deixou que o dr. Seiken acreditasse que ramos casados?
Connor deu de ombros.
	Ele parecia esperar que fssemos, com toda aquela conversa de pais de primeira viagem... Assumi que no deve conhecer Karen e John.
	No. Eles tinham outro pediatra, mas no estavam satisfeitos e por isso trocaram.
Pararam na farmcia para comprar os remdios. Quando chegaram em casa, Jane estava exausta e pronta para dormir. Allie deu-lhe o remdio e levou-a para cima para trocar-lhe a fralda, dar a mamadeira e coloc-la no bero.
Connor chegou a considerar sair pela porta da cozinha e voltar para casa. No entanto, sobre a mesa estavam as duas pizzas, e ele no foi capaz de desperdiar a chance de passar mais aqueles momentos com Allie. Sua resistncia no que dizia respeito a ela, era nula.
 Gosta de pizza de mussarela?  perguntou Allie ao descer.
Havia silncio l em cima, e Connor no precisou perguntar se Jane adormecera. A ansiedade desaparecera do rosto dela e agora havia um alvio e uma satisfao que s se via no rosto das mes.
  a sua favorita, no ?  acrescentou ela.  Lembro de ouvi-lo mencionar isso. Lamento que tenha ficado to tarde. Voc deve estar faminto.
Claro que ele no estava. Longe disso. Connor j consumira uma pizza inteira em casa. Mas no diria isso a Allie. Estava disposto a penitenciar-se comendo mais. Em troca disso, passaria mais tempo com Allie.
Quem poderia dizer como tudo aquilo acabaria?, questionou-se. Ao mesmo tempo, sua mente lutava em uma batalha perdida por controle.
Por que julguei que seria uma boa idia?, Allie se perguntou enquanto comiam a pizza. Eu devia saber que seria assim. To perfeito. S ns dois, com Jane dormindo no quarto l em cima, msica tocando, e as tantas coisas que descobrimos enquanto conversamos...
 Presumo que voc tem de fazer seu programa na rdio amanh cedo...  disse Connor, aps comerem a pizza e tomarem caf.
Sentavam-se em diferentes poltronas, com uma mesinha entre eles, na aconchegante sala de estar da casa de Karen e de John. Havia msica suave tocando ao fundo enquanto conversavam.
A mente de Allie estava to distante do trabalho que ficou perplexa.
	Oh, sim. Que dia  amanh? Sexta-feira? Sim, claro. Preciso ir dormir cedo, se no quiser perder a hora.
	Ento, j devia ter ido. So onze e meia.
	J? No pensava que fosse to tarde.... vou estar terrvel pela manh, quando acordar.
	No exagere.
	Voc no precisa acordar s quatro e meia da manh, seno saberia que no estou exagerando.
	De fato no preciso, mas ainda no estou com sono, e suspeito que to cedo no terei.  Ele correu os olhos pela sala antes de pous-los nela.
	No?
	No. Quer saber por qu?
Connor inclinou-se na direo dela, estendendo as mos para faz-la levantar-se. Allie permitiu que ele fizesse isso, no porque ele no lhe dava outra chance, mas porque a atrao era forte entre eles, e bvia. Ela se derretia com seu toque, com o modo como seus olhos azuis fixavam-se nela, desafiando-a a ler neles do mesmo modo como ele lia nos dela. No se beijaram, o que era mais incrvel. Permaneceram de mos dadas, simplesmente. Mas aquilo estava sendo mais poderoso do que qualquer beijo que ela j dera, ou recebera.
	O que podemos fazer, Allie? Tem alguma sugesto?  por fim ele disse, abraando-a.
	Creio que no devemos fazer nada... apenas deixar passar.  Porque o pnico que ela sentia era maior do que seu desejo por ele.
	Como? Sabe me dizer?
	Voc acha que eu tenho todas as respostas?  Allie esbravejou.
	Oh, Allie, no posso me envolver com voc, no seria justo. A hora  completamente imprpria. Para ns dois. Sempre soubemos disso.
 No meu caso, muito mais que imprpria  constatou ela.  Ainda no sei se conseguirei ser me, como posso saber se conseguirei ser amante? No consigo!  Ela no confessou que a idia a enchia de terror.
 Entendo  disse ele.  Eu no devia ter vindo aqui esta noite.
 No. Mas estou feliz que tenha vindo. Pelo bem de Jane  acrescentou ela, sem conseguir convencer a nenhum dos dois.
Connor afastou-se, deixando-a gelada, apesar do calor da sala.
 Tambm estou grato. V dormir, Allie, e faa um bom programa amanh.  Ele deu alguns passos e voltou-se.  Pretende fazer alguma coisa neste fim de semana?
	Nada. Cuidarei de Jane e  s. No domingo devo almoar com meus pais, em Allentown.
	Algum mais sabe que Jane est com voc?
	Somente Karen e John... E meus pais, claro.
	Quando Karen e John pretendem voltar?
	Domingo  noite. John tem um compromisso em Orlando amanh cedo. O restante do tempo eles pretendem descansar e se divertir. Foi dureza para eles aceitar que era preciso ser feito. Mas era necessrio.
	Para voc tambm est sendo duro, eu sei disso  disse ele, e tornou a aproximar-se.  No v ver seus pais neste domingo, Allie... fique comigo.
	Connor...
	Eu sei, eu sei.  A frustrao deixou sua voz to estridente que feriu sua garganta.  Mas eu no posso simplesmente deixar passar, Allie. No posso! Mesmo que isso signifique que a situao entre ns dois possa mudar bruscamente... Consegue me dizer com sinceridade que com voc  diferente?
Allie mirou-se naqueles ardentes olhos azuis, viu o modo como ele segurava as prprias mos, como se elas formigassem de vontade de toc-la.
 No... tambm no posso  confessou ela.

CAPTULO VIII

Allie foi trabalhar na manh seguinte deixando Jane aos cuidados da baby-sitter que Karen vinha usando nos ltimos seis meses, uma mulher de meia-idade chamada Hope, a quem ela comeava a apreciar tanto quanto Karen apreciava.
Ao dizer a Connor quais eram as pessoas que sabiam da verdade sobre Jane, Allie esqueceu de mencionar Hope, que era uma das pessoas que tornava possvel aquela transio.
	Hope enxaguava alguns pratos na pia quando Allie chegou do trabalho. Jane encontrava-se dentro do cercado, entretida com alguns brinquedos.
	Ela acordou faz uma hora  disse Hope.  J comeu o cereal e tomou o remdio. No chorou mais... nem deu sinal de que a dor de ouvido continua incomodando-a. No quer que eu fique mais um pouco enquanto voc descansa?
	No, obrigada... Estou bem.
Logo que Hope foi embora, Allie ligou para Connor. No o encontrou. Deixou um recado na secretria eletrnica.
 Cancelei o fim de semana, Connor. Estou muito cansada e resolvi ficar por aqui.
Estava tambm muito assustada, mas jamais admitiria isso.
Aps ter deixado o recado, Allie se sentiu bem melhor. Agasalhou Jane e levou-a para um passeio na praa com o carrinho.
De volta em casa, depois que a alimentou e tomou uma sopa, ambas estavam prontas para um longo cochilo.
Allie dormia o sono dos justos, encolhida no sof da sala de estar, at ser acordada pelo som da campainha.
Era Connor. Ela perguntou se ele verificara os recados.
	Verifiquei, sim  disse ele, parado  porta e com as mos no bolso.  Voc vai ficar por aqui.
	Sim, pensei melhor e resolvi ficar.
Ela cedeu, abriu a porta e permitiu que ele entrasse. Perguntou-se por que ceder era to bom. No deveria. Devia se zangar seriamente com ele por ser to insistente, e no aceitar no como resposta.
	Jane est dormindo  informou.
	Ento vamos esperar que ela acorde.
	Esperar pra qu?
	Para irmos ao shopping.
	Ao shopping?
De repente ele ficou pensativo.
 E por que no?  indagou, caminhando atravs da confortvel sala de estar da residncia, com os polegares enfiados nos bolsos da frente do jeans.
Ento tirou a jaqueta. Usava uma camisa de flanela aberta na frente o suficiente para mostrar a camiseta branca que usava por baixo.
	Ir passear no shopping  bastante suburbano, no ?  prosseguiu ele.  Preferia lev-la para esquiar, ou algo parecido. Voc sabe que com Jane no d para fazer isso, mas o shopping ser divertido. Ser como uma aventura, pelo menos para mim... que no costumo frequent-los.
	Ento ser mesmo uma aventura... eu tambm no costumo frequent-los.
Jane acordou minutos depois, e os trs seguiram para um dos shopping centers da cidade, usando o pequeno carro de Allie.
Passearam por todo o local, compraram brinquedos e algumas roupas para Jane e por fim foram ao cinema. Felizmente, Jane dormiu o tempo todo.
	E ento? Gostou?  perguntou Connor, no carro, na volta para casa.
	Do filme? Gostei muito.
	No s do filme... Mas tambm da ida ao shopping. Foi ou no foi uma aventura?
Allie pensou um pouco antes de responder:
	Foi o passeio mais longo que fiz com Jane. Aquele foi o primeiro brinquedo, e tambm as primeiras roupas que comprei para ela. Antes eu no me atrevia a fazer isso. S de pensar em comprar algo pra ela me deixava... me deixava...
	Voc no me deve nenhuma explicao.
	Fazer aquela colcha j foi suficientemente difcil.  Ela mudou de assunto rapidamente, sofrendo ainda pelos seis meses com Jane que perdera.  E quanto a voc, Connor? Tambm se divertiu?
	Sim... Foi divertido, bem mais do que simplesmente ficar sentado bebendo cerveja com uma poro de amigos que nada tm de muito profundo a dizer, mesmo estando sbrios, menos ainda quando no esto. Podemos tornar a nos divertir, qualquer dia desses.
 Claro...  Allie concordou, e passou o resto da viagem pensando em quantos convites poderiam haver naquela simples frase.
Sbado foi um daqueles dias amenos que fevereiro de repente costuma nos incutir.
 Dias como esses me deixam com vontade de sair por a fazendo loucuras  disse Connor a Allie, s dez da manh, ao bater  sua porta com um buqu de azalias na mo, e usando camisa de mangas curtas.
Allie sorriu, tentando no notar o que a camiseta branca fazia com os contorno de seu peito musculoso.
	As flores so lindas, Connor. Colheu-as de seu jardim?
	No. Minhas azalias apenas comearam a florescer. Jane j acordou?
Allie fez um gesto com a cabea em direo  escada.
 O que voc acha?
Dava para ouvir os rudos que ela fazia brincando sozinha no bero.
	Sim, pelo jeito ela est acordada. Eu tinha esperana de que ela estivesse. Vocs duas no querem ir ao parque comigo e ver a neve derreter?
	Um... deixe-me ver...
	Antes que voc responda, devo avis-la, para o caso de voc no saber. O homem do tempo avisou que teremos uma nova onda de frio. Esto prevendo que a temperatura cair bastante amanh.
	Verdade? Mas o dia est to claro e ensolarado...
	Mas esto prevendo que a temperatura cair bastante. E teremos neve  noite.
 Ser mesmo? Ento vamos ao parque, aproveitar o sol antes que acabe  disse Allie, rindo.
Ela ficou atnita quando viu a cesta de piquenique que Connor trouxera.
	Ento, voc planejou tudo isso?
	Na verdade, planejei o passeio, mas o lanche eu comprei na padaria da esquina.
Allie pegou o carrinho de Jane e o empurrou at o carro enquanto Connor acomodava a garotinha no veculo. Foi agradvel ser capaz de tir-la de dentro de casa usando apenas um macaco de moletom e um casaco.
Pegaram o carro e dirigiram-se ao parque prximo a casa dos pais de Connor, onde ele fora criado e brincara em criana.
Ao chegarem ao parque, se dirigiram s mesas de piquenique. Sentaram-se para apreciar o dia, os olhos fechados e o rosto levantados em direo ao sol.
Aps Jane ter tomado a mamadeira e adormecido, Connor e Allie estenderam a toalha e comeram a deliciosa refeio. O exerccio e o ar livre abriram-lhes o apetite. Ento, deram um passeio e conversaram, empurrando Jane no carrinho, at que o beb acordasse e chamasse a ateno deles, de uma forma nada sutil, para o fato de Allie ter esquecido de trazer fraldas limpas para troc-la.
Allie desesperou-se.
 No posso acreditar! Agora teremos de voltar para casa.
Connor apenas ria. Ela fuzilou-o com os olhos.
	Por que voc est rindo?
	Porque  maravilhoso. Sabe o que isso indica? Que voc agora pode dizer ao mundo que  uma verdadeira me.
	Voc acha? Pois eu acho exatamente o contrrio. Eu devia ter lembrado que Jane iria precisar de fraldas limpas.
	Relaxe, isso acontece o tempo todo com Julie, minha cunhada, com Meg, minha irm... Elas trazem trs tipos de comida de beb e esquecem de trazer as colheres, at as roupinhas j esqueceram de trazer.
Allie no se conformava com o esquecimento.
 Isso acontece a aproximadamente cada cinco minutos em algum lugar no mundo  assegurou ele, solenemente, minutos depois ao se dirigirem de volta ao estacionamento.  Diga a verdade, Allie. No est comeando a se sentir como me de Jane?
De repente. Connor se aproximou e passou o brao pelos ombros de Allie. Aquilo pareceu to natural que ela no resistiu e pousou a cabea em seu brao.
Ela ento suspirou.
	Na verdade,  como estou me sentindo... E inacreditvel que se passaram apenas duas semanas. Eu estava to assustada... to insegura... pensando nas consequncias, no meu trabalho... Neste momento, no consigo imaginar viver sem ela. E quanto ao trabalho, est tudo bem, apesar de eu me sentir um pouco cansada.
	Voc vai se acostumar...
	Pensei que fosse morrer de medo quando acordasse pela manh e me visse sozinha com Jane um fim de semana inteiro. Mas no tive medo algum. Karen ligou duas vezes, e na segunda vez, eu quase disse a ela para que curtisse o fim de semana a ss com John e que parasse de telefonar, porque estava tudo bem comigo e com Jane.
	Voc logo estar pronta para dar o grande passo  sugeriu ele.  Mudar-se para o seu apartamento.
	No estou bem certa disso... Pretendo ficar mais uma semana ou duas. Sei que ser difcil para Karen deix-la ir... Para John tambm. J foi difcil para eles viajarem deixando-a comigo. Moro longe... a uma hora daqui em dias de muito trnsito. Eu gostaria de morar mais perto.
Chegaram ao carro. O estacionamento agora encontrava-se lotado, e o cho escorregadio devido o degelo. Connor observou enquanto Ally manobrava o carrinho evitando as poas de gua, e o estacionava perto da porta traseira.
Ela apontou o chaveiro para o veculo, pressionou um boto e as portas destrancaram-se automaticamente. Portas abertas, ela tirou Jane do carrinho e acomodou-a, prendendo-a  cadeirinha.
S ento olhou para Connor, parado ali e observando-a. Allie sorriu.
 Ser muito bom, Connor  disse.  No importa a distncia.
 Fico feliz por voc, Allie  disse ele, e perguntou-se por que aquela rouquido na prpria voz.
Enquanto estava ali parado observando-a, com as poas de gua no cho, as rvores todas luzindo em torno dela, suas pernas esguias e bem torneadas escondidas na cala jeans, os cabelos escuros presos em um rabo-de-cavalo, e o sol bronzeando a pele de seus ombros, acima do decote da camiseta...
Connor por fim entendeu que ela era a causa da sua inquietao. Mas no era possvel, porque ele j se sentia inquieto mesmo antes de conhec-la. Mas de algum modo, era verdade. Sua alma h muito tempo vinha gritando por uma nova aventura, uma nova paisagem, e a nova aventura era uma mulher como Allie.
No uma mulher como aquelas que ele conhecera no curso da vida que levara nos ltimos dez anos, mulheres superficiais, que perambulavam  toa, enfadadas, mulheres que passavam de um relacionamento para o outro, sem jamais se firmar com ningum, em lugar nenhum.
No incio ele temera qualquer envolvimento com Allie, por no poder garantir que no entraria em sua vida e em seguida sairia daquele mesmo modo. Mas agora entendia que estivera errado. Estava pronto.
No queria mais desistir da sociedade com os irmos. Estava feliz trabalhando com eles. Aquela era a nova aventura pela qual ele ansiara durante toda a vida, algo muito mais profundo e mais duradouro do que tudo o que ele j tentara antes.
Allie acomodou-se atrs do volante e ele ao seu lado, no banco de passageiro. Como no dia anterior, quando foram ao shopping center, usavam o carro dela para no ser preciso remover a cadeirinha de Jane de um carro para o outro. Connor apreciava seu jeito meio irregular de dirigir. Naquela dia, com todas as suas descobertas pesando, e estando meio perplexo com a revelao, ele viu algo simblico no jeito de ela dirigir o carro. Percebeu que no que se referia ao andamento e a natureza do relacionamento deles, era Allie quem estava  direo.
O que eles tinham... o que eles comeavam a ter... era ainda to frgil e to sinistro quanto fora o gelo no qual ela afundara h duas semanas.
Allie confessara que tivera dois pesadelos com o acidente. Imagens nas quais sua cada na gua gelada do lago misturavam-se  outras, bem mais obscuras, de perda e de violao.
Mas Connor no tinha iluses de que aquele relacionamento seria to suave quanto a forma que ela naquele momento dirigia. Allie adorava a filha, e estava aprendendo a lidar com ela. Mas Connor sentia que havia certas coisas com as quais ela ainda no conseguia lidar, e que algum dia ela teria de lidar. E em breve, embora talvez no se desse conta disso. E, at que acontecesse, ele teria de aguardar.
	No sei mais onde estou, Connor. Viro  direita ou a esquerda?
	Vire  esquerda, e no prximo farol  direita  instruiu ele.
Mais uma vez, o simbolismo daquilo o abismou. Era ele o navegador, que dizia a Allie como prosseguir. Aquilo se aplicaria somente ao curto trajeto de carro? Ou tambm se aplicaria em suas vidas?
Havia uma forte suspeita dentro dele, crescendo a cada momento, de que provavelmente era o que aconteceria.
 Esta noite voc janta aqui comigo, est bem?  disse Connor a Allie.
Eles tinham se despedido de imediato aps chegarem em casa, h cerca de... oh, dois minutos. De repente, ele resolveu telefonar, no instante em que fecharam as respectivas porta.
	Connor, eu...
	E no aceito desculpas. Esqueci de convid-la antes. Vejo voc s seis.
Connor desligou o telefone antes que Allie continuasse a protestar.
Passou com Jane tranquilamente o restante da tarde, e s seis horas foram para a casa de Connor. Ele estava na cozinha, preparando o jantar, o cheiro de alho e temperos impregnando a casa e escapando pela janela aberta da cozinha.
Allie ainda no estivera ali, mas de imediato ela se sentiu em casa.
Como a casa de Karen, a dele tambm era ampla, clara e arejada e construda em estilo vitoriano. Connor acabava de reform-la, adotando um estilo meio irreverente que funcionava surpreendentemente bem. Ela no sabia o que os antigos proprietrios pensariam da ampla e nova sala, resultado da derrubada de vrias paredes. Ela gostou do espao e da claridade, tanto quanto gostou das cores brilhantes do teto, dos batentes das portas e dos acabamentos.
 O que voc est fazendo, Connor? Seja o que for, o cheiro  fabuloso!
Ela havia sentado Jane no tapete na sala de jantar de Connor, com alguns brinquedos que trouxera.
 Paella  disse ele.  No que eu queira impression-la, ou coisa parecida.
Ento ele sorriu, e Allie sorriu de volta, mais contaminada pelo clima do que por qualquer outra coisa. Estar ali com Connor era assustador e maravilhoso ao mesmo tempo...
No, muito mais assustador, ponderou ela. Ele estava tentando impression-la, e no fazia o menor esforo para esconder isso.
 Voc nunca disse que sabe cozinhar... Mesmo quando eu admiti que sou um desastre na cozinha.
Ele deu de ombros e sorriu.
	De qualquer modo, meu repertrio  bastante limitado, embora seja impressionante o que dez anos comendo mal, em pssimos restaurantes podem fazer com a sua motivao. Essa  a pequena atrao que fao apenas para impressionar. Assim como lenis de cetim, msica suave tocando ao fundo, esse tipo de coisa...
	Voc tem lenis de cetim?
	No, nem lenis de cetim, nem msica suave tocando ao fundo. Portanto, no se assuste.
	Desculpe...
	No, eu me desculpo. Minhas intenes so muito, muito ms, mas pelo menos, tm a virtude de terem sido anunciadas.
	Quanto ms?  perguntou Allie.  J que estamos sendo to sinceros...
Diante disso, era intil agir com surpresa ou timidez. Ela sabia porque Connor a convidara para vir. Eram ambos adultos, com uma qumica igual  fuso nuclear entre eles, e cada dia mais forte. Tivera toda a tarde para dizer no. E no fizera isso.
Devia procurar ser honesta consigo mesma sobre o que significava aquilo. No que fosse fcil. Tambm no significava que eles dariam certo juntos. Allie tinha srias dvidas, uma enorme...
Ele largou a colher de pau que estava usando para mexer a paella e aproximou-se dela, perto da porta de sua recm-modernizada cozinha.
 Oh, eu diria s um pouquinho mais do que isso  disse ele, suavemente.
Connor ento passou os braos em torno dela, como se estivesse abraando um buqu de flores. Allie se sentiu tomada nos braos e beijada.
Ambos ofegavam. Allie debateu-se, tentando se libertar, mas no obteve sucesso. Connor apertou-a ainda mais entre os braos. Quando ela tentou evitar o contato dos lbios sensuais, foi segura pelo pescoo, o que lhe dificultou os movimentos.
No tinha meios de escapar daquele beijo. A presso dos lbios e do corpo msculo era to intensa que ela imaginou-se absorvida por algo intangvel. Jamais fora desejada e arrebatada daquela maneira.
Inesperadamente, porm, Connor relaxou o abrao, tornando-se gentil. Seus lbios passaram a explorar os dela com delicadeza. As mos acariciavam-lhe o rosto, em vez de segur-lo. A boca movia-se com suavidade, descendo pelo queixo at alcanar o pescoo alvo, onde sentiu a pulsao de Allie em ritmo acelerado.
Connor beijava-lhe a pele com doura, e ela, gemendo, deixou-se levar pela carcia. Tinha certeza de que ele a pegaria nos braos e a conduziria ao quarto, onde pudessem concretizar as fantasias sensuais que os dominavam. Saciariam a fome da paixo sobre os lenis macios.
No entanto, Allie dizia a si mesma que aquilo no poderia acontecer. Jamais. Mas Connor a envolvia com tanto carinho, enquanto a beijava, que seria inconcebvel quebrar o encanto daquele momento.
 Oh, Allie... Allie  murmurou ele, como se mal se desse conta do que dizia.
Allie abriu os olhos por um instante e viu que os deles estavam fechados, como se ele olhasse para um outro mundo. Ento ela soube que ele estava to perdido quanto ela.
De repente, ela estremeceu e juntou todas as foras para se proteger, no de Connor, mas de si prpria. Empurrou-o para longe e abraou a si mesma.
Ainda no estou pronta para isso.
Olhou para Connor, comeando a suspeitar de sua alardeada honestidade. O que era aquilo? No seria mais uma ttica masculina, no melhor do que a ttica que Jerry Purcell usara, de chorar em seu ombro para em seguida drogar seu caf? No seria apenas uma desculpa para coagir aquela qumica entre eles atravs da sua mais lgica e fsica concluso?
A cama.
Allie no queria que fosse assim. Ela jamais optara por relacionamentos casuais, e estava menos inclinada ainda a aceitar isso aps o que lhe acontecera h quinze meses, e agora havia Jane.
Quando uma mulher se tornava me, ela no ficava apenas com suas necessidades, com os prprios bloqueios para considerar. Ela precisava tambm considerar as necessidades da criana que colocara no mundo, e as crianas precisavam de estabilidade, de pessoas em sua vida com quem pudessem contar.
	No, Connor...
	Voc no quer a sobremesa antes do prato principal, no  verdade?  brincou ele.
	Na verdade, no quero nenhum tipo de sobremesa.
	Engraado. Tive a impresso de que voc gostava de doces. Allie o viu recuar para estud-la, tensa e procurando se proteger. Seus olhos se estreitaram pensativamente, apesar do seu tom de brincadeira.
Mas ela j tivera o bastante daquilo.
	Pare com esse jogo de palavras, Connor. Discutimos o assunto l no lago, lembra-se? E concordamos que no daria certo.
	Isso foi l, agora eu penso diferente.
	Mas eu, no.
Ele manteve silncio por alguns minutos, at dizer:
	Voc trouxe a comida de Jane?
	Sim, mas eu acho que  melhor...
	Ir embora? E desperdiar toda essa comida? Voc no precisa ir, Allie. Sabe muito bem que eu no sou do tipo que no ouve o que uma mulher est dizendo.
	No ?
	No. E a entendo perfeitamente. Voc no est pronta.
 Pode ser tambm que eu no queira.
Outro silncio.
 Pode ser. Em todo caso, fique sossegada. No pretendo for-la.
Allie no tinha motivo para duvidar dele, e todos os motivos para duvidar dela mesma. Estava ciente de que sua reao no foi to consistente e saudvel como deveria ser  essa altura de sua vida.
Portanto, mesmo com o pnico e as dvidas que sentia ela ficou. Comeu a melhor paella que j provara e no ficou aliviada como devia ter ficado quando ele lhe desejou boa-noite sem nem sequer dar-lhe um beijo no rosto.

CAPTULO IX

Ela adorou! Ela adorou!  exclamou Karen entusiasticamente. Acabara de desligar o telefone no estdio que criara da antiga saleta ao lado da ampla sala de estar da casa. E se ps a danar a caminho da cozinha, onde Allie dava o jantar a Jane.
	Quem adorou o qu?  Allie quis saber.
	Nancy Sherlock adorou a minha capa. Allie sorriu.
	Oh, Karen! Meus parabns^

	Obrigada... Falei com o diretor de criao da editora... eles definitamente me querem para fazer outros trabalhos.
	Quais das duas verses eles pretendem usar?
	Ambas.
	Ambas?
	A foto perto da lareira ilustrar a capa interna e a da neve, a externa. Ficaram perfeitas! Nelas est estampada a inicial desconfiana dos dois personagens... o fogo da paixo despertada entre eles. Beleza.
	Quer dizer que j podemos ver as fotos?
	Claro.  Karen supersticiosamente se recusara a mostrar as fotografias a Allie e a Connor. No as mostraria at ela saber se seriam aceitas pela editora. Naquele momento, feliz com o prprio sucesso, ela parecia ansiosa para que todos as vissem.
 Que pena...  disse ela.  Justamente hoje, John avisou que chegar mais tarde em casa.
Allie levantou-se. Levando a colher de Jane com ela, foi espiar a casa de Connor pela ampla janela da cozinha. Justamente naquele momento uma luz foi acesa, em seguida outra.
	Parece que ele acaba de chegar.
	Que bom. Vou cham-lo.  Karen dirigiu-se ao telefone, enquanto Allie tratou de terminar de dar o jantar a Jane, desejando tarde demais no ter admitido ter visto as luzes acesas na casa vizinha.
Vira Connor umas duas vezes desde o jantar do ltimo sbado, e ambas as vezes, apenas por alguns minutos. Na segunda-feira  noite, ele viera pegar um filme que Karen lhe prometera. Na manh da quarta-feira, s dez horas, eles apenas se cruzaram. Connor saa de casa acompanhado pelo irmo, Patrick, ambos usando ternos bem talhados, enquanto Allie voltava para casa, aps ter terminado seu programa na emissora.
	Connor j vem  avisou Karen, feliz da vida.
	Ele tambm deve estar ansioso para ver as fotos...  disse Allie, com falso entusiasmo.
Connor chegou cinco minutos depois, usando um terno escuro como no dia anterior, camisa tambm escura e a gravata combinando. Ao v-lo, Allie se perguntou se existia algum estilo de roupa que no fazia dele o homem mais bonito que uma mulher j vira.
Apenas olh-lo fez uma parte dela desejar passar a mo por seu terno para saber como era senti-lo sob os dedos, fazer o palet escorregar pelos ombros, afrouxar sua gravata e...
Ento a outra parte dela assumiu o comando.
Lembranas. Terror. Dvidas.
Uma familiar progresso de sentimentos que a bloqueava. Allie recusou-se a pensar no significado de tudo aquilo. No ainda.
Em vez disso, pensou em Karen, e em como ela estava feliz com seu trabalho.
Karen fora at o estdio e trouxera as fotografias para a cozinha. Vinham protegidas dentro de uma pasta, e ela a segurava, esperando o momento perfeito para mostr-las.
	Foram ampliadas, mas sero reduzidas quando forem impressas  explicou ela.  Claro que faltam alguns detalhes...
	No fique to nervosa, Karen  brincou Connor.  Nancy Sherlock adorou seu trabalho, lembra-se? Nossa opinio no importa.
	Pelo contrrio. Conta muito. Vocs so os modelos...  Ela ento suspirou.  Allie, por favor, no grite.
Allie sorriu.
 Est bem  prometeu.
Karen levou a pasta at a mesa e abriu-a, pegando as duas fotografias e colocando-as lado a lado. Ento, afastou-se para que eles as vissem, mordendo o lbio inferior.
Allie tambm mordia, tentando no gritar. Bastante ampliadas, as fotografias pareciam brilhantes, ousadas e apaixonadas.
Embora Connor e Allie reconhecessem a si mesmos, a intimidade de suas expresses, a paixo cercando-os, foram definitivamente destacadas pela habilidade que Karen possua em retocar, e pelo dramtico uso de cores. As cenas eram ressaltadas pelas brilhantes tonalidades do azul e do branco da neve, do cu invernal e da paisagem montanhosa. Tambm pelas chamas e pelos tons dourados da madeira, da cabana iluminada apenas pelo fogo aceso na lareira.
Na primeira fotografia, Connor e Allie... ou Brady e Savannah, tinham seus olhares presos um no outro. Jane, posando como Will, a filha de Savannah, surgia mais ao fundo, adorvel, com os olhos muito azuis e as bochechas rosadas.
Na segunda, Connor fitava Allie, de modo intenso, em torno deles a sensual sugesto do beijo iminente.
	Nancy tem razo, Karen..,  disse Allie.  Olhar essas fotografias me faz querer ler o livro. Um beb, uma cabana isolada, e essas duas pessoas, to apaixonadas e ao mesmo tempo to amedrontadas sugerem uma trama apaixonante.
	As fotos ficaram melhor do que eu esperava  disse Karen.  Mesmo as outras...  Ela hesitou e pareceu ligeiramente constrangida.  As que Connor tirou com sua cmera... Vocs acreditam que a expresso de seus rostos, na foto na neve, foi tirada diretamente de uma delas? Quero dizer, a luz e o enquadramento estavam terrveis, mas...
	Eu acredito  disse Connor, gentilmente.  No tenho qualquer pretenso. Sou apenas um gnio natural da fotografia.
Os trs riram, quebrando a tenso crescente na cozinha.
	Se vocs permitirem, os usarei como modelos nos prximos trabalhos. Provavelmente na prxima semana  disse Karen.
	No!  Connor e Allie exclamaram, antes que ela terminasse.
	Por que no?
Jane escolheu justamente aquele momento para protestar por estar sendo ignorada.
Com o rosto ardendo, Allie pegou a colher e comeou dar a sobremesa  sua filha. Ela se recusou a comer, virando a cabea. Bateu na colher que Allie segurava, espirrando para longe o pur de frutas. Allie se desculpou. Karen pegou um pano e comeou a limpar a mesa, temendo por seu precioso trabalho.
A sugesto de Karen para que Connor e Allie repetissem a atuao como modelos foi esquecida. Por enquanto.
Diante da insistncia de Karen, Connor ficou para jantar. Havia tirado o palet e a gravata, deixado sobre o sof da sala e dobrado as mangas da camisa. Parecia bastante  vontade e sem nenhuma pressa de ir embora.
Ainda estava l quando Allie desceu aps ter trocado Jane e colocado para dormir, e na hora em que John chegou em casa, foi arrastado para o estdio por sua vida esposa, que lhe contava toda orgulhosa sobre seu trabalho ter sido escolhido para ilustrar a capa do livro de Nancy Sherlock.
	Caf?  Connor ofereceu a Allie.
	No, obrigada. Caf agora me tiraria o sono.
	E quanto a proposta de Karen? O que voc acha?
 Proposta?  perguntou Allie, e de imediato lembrou.
Por que ela reagiu como se tivesse sido golpeada quando Karen sugeriu que eles tornassem a posar juntos?
	No acha que ela vai querer saber por que no aceitamos?
	Acha que isso  importante?
	No sei, mas talvez Karen ache.
	Arranje uma desculpa qualquer. Ela no insistir  disse Allie. A leveza em sua voz no era genuna.
Ela estava inquieta, e ficava mais inquieta a cada minuto que passava.
 Farei isso.
Muita coisa aconteceu nas trs semanas que se passaram. Havia uma sensao calorosa, como ela jamais experimentara, como se agora fosse realmente a me de Jane, em todos os sentidos. Uma sensao que se tornava cada dia mais intensa.
Enquanto isso, Karen aos poucos ia se conformando com a perda, no de seu amor por Jane, que sempre seria intenso e verdadeiro. Agora ela j confiava na deciso que Allie tomara.
Entrava no terceiro ms de gravidez, e o beb dentro dela se tornava cada vez mais real e significante. As fortes nuseas que a acometiam h seis semanas comeavam a diminuir. Ela, John e Allie concordaram que, quando as nuseas passassem de vez, Allie poderia ir para casa com Jane.
De certo modo, Allie ansiava por aquela etapa final da transio, mas estava ciente de que devia ansiar um pouco mais por aquilo. Alm disso, a agenda de sua irm mais velha parecia cada vez mais lotada, e se Connor no fazia parte da conspirao para que ela ficasse mais um pouco, ele com certeza parecia mais do que feliz por cooperar com isso.
No entanto, quando Karen comeou a atravessar as guas calmas do segundo trimestre de gravidez, ela j no se dava ao trabalho de arrumar mais desculpas para que Allie ficasse.
 J que em breve voc vai se mudar para o seu apartamento, Allie, pensei em pedir a Hope para ficar com Jane esta noite e sairmos todos para comemorar.
E justamente quem eram aqueles "todos"? Allie no precisou perguntar. Sabia que Connor estava includo.
No ficou surpresa quando Karen sugeriu que ela se vestisse para uma ocasio especial, com o seu melhor vestido, o preto. Tambm no ficou surpresa quando descobriu que o restaurante seria o mais caro e exclusivo da regio. Tampouco ficou quando Karen, inesperadamente, perdeu o interesse pela sobremesa e avisou que estava muito cansada, e queria que John a levasse de volta para casa.
	Mas vocs podem ficar...  sugeriu ela, generosamente.
	Ser que precisamos de sua permisso?  brincou Allie.
Karen sorriu.
 No, claro que no. Divirtam-se, e no tenham pressa de voltar para casa.
John tentou esconder um sorriso com a mo. Deus, ele tambm fazia parte da trama! E Allie sempre julgou o cunhado como sendo do tipo confivel. Um minuto depois os dois haviam desaparecido.
	Uma das coisas que mais adoro em minha irm mais velha  a sua sutileza.
	De fato,  uma grande qualidade  concordou Connor.
Allie franziu as sobrancelhas.
 Ei  protestou ele, suavemente.  Ser que  to ruim ficarmos aqui s ns dois? Temos nos visto bastante ultimamente, mas nunca a ss.
 No?  Allie o desafiou e de imediato se arrependeu.
De fato, naquelas trs semanas eles no ficaram sozinhos uma s vez. Ento, por que ela tinha uma dzia de lembranas de momentos que lhe pareciam to ntimas?
Como quando Connor segurou seu casaco para que ela o vestisse, e sentiu seus dedos gentilmente erguendo-lhe os cabelos para ajeitar-lhe a gola, quando Jane jogou uma colherada de sopa no rosto dele, e Allie se viu quase que praticamente sentada em seu colo para ajudar a limpar seu rosto com lenos de papel, quase se perdendo nas profundezas daquelas pupilas azuis.
E teve aquela vez em que ele passou mais de uma hora entretendo Jane com seus brinquedos enquanto Allie dobrava a roupa que tirara da mquina de secar, e Karen ajudava John no preparo do jantar.
Algumas daquelas lembranas lhe pareceram to ntimas, como se eles estivessem juntos em uma ilha deserta.
	No, Allie, assim no d. Desse jeito nosso relacionamento no ir a lugar algum.
	Relacionamento? No existe nenhum relacionamento entre ns  protestou ela, em pnico.
	Mas no por eu no ter tentado.
	Desculpe-me. De verdade. Preciso dizer a Karen que...
	No, por favor...  Connor estendeu o brao sobre a mesa e pegou a mo dela.
Allie estremeceu. Mas a mo dele era to calorosa. Como aquilo podia ser to agradvel, e ao mesmo tempo to assustador?
	S quero que voc faa uma coisa  continuou ele. Seus olhos azuis eram como duas jias facetadas.  Que agradea a ela pelo esforo que fez para que ficssemos juntos.
	Connor...
	E no diga que estou pressionando-a. No estou. Sinto que agora voc est pronta, Allie. Negue, se puder, que no quer isso tanto quanto eu quero.
Allie afastou a mo da dele.
	Pensei que voc no queria... Que era a ltima coisa que desejava na vida.
	E ser que um homem no pode mudar de idia, aps ter pensado melhor?
	Bem, eu no mudei. Eu me sentia... me sentia segura antes, quando voc afirmava que no havia futuro para ns dois. E voc no disse, h duas semanas, que sabia ouvir o que uma mulher dizia?
	Disse, e acredito no que disse.
Connor inclinou-se sobre a pequena mesa at quase conseguir beij-la, e teria feito isso se ela tambm se inclinasse. Allie no conseguiu afastar os olhos dos seus lbios.
 Voc est dizendo que quer isso, tanto quanto eu quero... No com palavras, mas com cada um dos movimentos que faz com o corpo sempre que estou por perto, com cada olhar que lana em minha direo. Cada vez que rimos juntos... Toda a vez que seu rosto se ilumina quando me diz algo engraado que Jane fez. Voc deseja isso. No entanto, sempre que surge uma chance de ficarmos sozinhos, voc d um jeito de sabot-la.
	Voc est delirando, Connor...
	Como na outra noite quando John e Karen nos deixaram a ss e subiram para o quarto. Voc os seguiu depois de dois minutos. E h duas semanas quando foi me devolver o aspirador de p... E eu lhe ofereci uma xcara de caf, e voc recusou, dizendo que Jane devia ter acordado, quando eu sabia que ela estava feliz com Karen.
	Basta, Connor!  disse ela, em voz baixa.  No vou ficar aqui ouvindo essas tolices. Vou embora desse restaurante. Boa noite!
Ela no fez questo de esconder o fato de estar apavorada. Pegou a bolsa, levantou e afastou-se apressada, como se mil demnios a perseguissem. Somente ao chegar ao estacionamento ela se deu conta que viera no carro de John.
Retornou  porta do restaurante e parou nos degraus de entrada, por demais frustrada para tornar a entrar e pedir um txi. Connor ento se aproximou.
	Quer uma carona?  Ele correu a mo de seu ombro at seu quadril, ento afastou-a.
	No, obrigada.
	Ora, Allie, deixe de bobagem.
	Bem, na verdade, vou precisar de uma carona, apesar de no querer. Mas no a sua carona. Voc no acha melhor sairmos um do caminho do outro, pelo menos por enquanto?
	Para que voc possa cimentar seus bloqueios emocionais um pouco mais firmes no lugar?
	Bloqueios emocionais?
	Sim! Esses com os quais voc devia tentar aprender a lidar, antes que isso entre ns v mais adiante.
	Como pode falar com essa autoridade sobre o que se passa dentro de mim? O que lhe d esse direito?
Uma sbita vontade de se abandonar em prantos a invadiu. As lgrimas continuavam a ofuscar-lhe a viso, e os soluos estavam presos em sua garganta.
Connor segurou-a pelos ombros e fitou-a diretamente nos olhos.
 Fao isso porque me importo com voc! Quantas vezes mais terei de dizer isso? Eu andava inquieto, inseguro, sem saber o que fazer. Agora eu sei que precisava de algum tipo de aventura em minha vida. Ento entendi. Essa  a aventura. Essa!
Num movimento rpido, ele pegou-a nos braos e beijou-a na boca, profunda e ardentemente.
Allie estremeceu quando o calor incendiou seu corpo. Sabia que devia protestar, afastar-se, que as coisas caminhavam de modo errado. No entanto, apenas conseguia entregar-se s sensaes maravilhosas que se espalhavam por seu corpo sempre que aqueles lbios a tocavam.
Connor suspirou.
 Solte-me!  pediu ela, empurrando-o com o corpo.
Um brilho selvagem apareceu nos olhos dele, que gemeu e tornou a tomar-lhe os lbios. Allie agarrou-se a ele. A boca masculina a consumia, tirando-lhe a resistncia.
 Sei que voc precisa de tempo  Connor disse por fim, levantando a cabea.  Mas por favor, pelo menos admita que partilhamos da mesma meta, que voc me quer, tanto quanto a quero.
 No partilhamos. Jamais admitirei isso.
Deliberadamente, ela deixou o corpo tenso, mas no precisou lutar com ele. Connor sentiu a determinao nela, e afastou-se.
Teimosia. Era uma qualidade que Allie usava e abusava quando precisava dela. J fizera isso antes. Fora relativamente fcil anos atrs, convencer o diretor da emissora que o tom de sua voz, seu entusiasmo pela msica country, compensariam sua falta de experincia. Ela possua uma formao, mas no em msica, e o diretor da emissora nem sequer quis ouvi-la.
Mas Allie fora teimosa. Gravou a prpria voz, analisou-a e aperfeioou-a. Aprendeu tudo sobre o rdio trabalhando em uma pequena emissora que faliu um ano aps ter sido inaugurada. Ento, por fim, a WPYR a contratou.
E se fosse preciso usar da mesma teimosia para convencer Connor que, qualquer que fosse o motivo... No, ela no lhe daria um motivo... motivos no eram importantes, pensou furiosa, para convenc-lo que ela no queria isso, ento ela a usaria.
	Ns no temos nenhuma meta, Connor. Eu no quero ter qualquer envolvimento com voc. Simplesmente, no quero. Acredito que a qumica permanea. E isso  uma complicao. Mas qumica s no  o bastante.
	Existe muito mais do que qumica, Allie.
	Certo. Ns podemos ser amigos, se voc quiser.
	Amigos?  Ele riu, quase que com cinismo.  Acha que poderia dar certo?
	Est bem. Esquea o que eu disse.  Ela deu de ombros.  Ser melhor que cada um v cuidar de sua vida.
	Allie, voc acha que  justo?
	Justo para quem? Para com voc, suponho.
	No. Justo com voc. Voc est fazendo isso por causa de Jerry Purcell, e entendo perfeitamente...
	Voc no entende nada.  De repente ela tremia.  No entende nada, Connor Callahan.

	Voc acha que ele pode estar fazendo o mesmo com outras mulheres? Encurralando-as? Manipulando-as?
	No quero falar sobre isso. No quero pensar nisso. Tenho problemas suficientes na minha vida.
Connor continuou como se ela no tivesse falado:
	Talvez voc ache que deve isso a si mesma, a Karen e a John, e at mesmo a mim, descobrir seu paradeiro e confront-lo? Ou denunci-lo  polcia? Ou contratar um advogado? Ou qualquer outra coisa, para s assim prosseguir com sua vida. Aquele horror ainda est dentro de voc, Allie.
	J basta, Connor! Estou pensando em Jane, no em Jerry. Isso  passado.  irrelevante. E voc s precisa... s precisa... me deixar em paz! Parar de me pressionar! Quero ir para casa. Vou chamar um txi.
	Est bem, Allie. Voc venceu.
Ela o fitou, esperando mais, mas no havia mais nada.
Uma ltima vez ele disse:
 Voc venceu.  Ento, se afastou, indo em direo ao estacionamento.
Allie esperou at que ele desaparecesse de vista para entrar no restaurante e chamar o txi, dizendo a si mesma muito firmemente no estar esperando que ele desse meia-volta e tornasse a insistir com ela.
De modo algum. Nunca.

CAPTULO X

Connor fez aquilo sistematicamente. Pegou o telefone e comeou a ligar para cada Purcell no catlogo telefnico da Filadlfia, em seguida para todas as emissoras de rdio do pas.
Lgica. Estratgia. As mesmas habilidades que o pessoal na diviso de games na Empresa Callahan Systems usava quando desenvolviam e testavam um novo software.
Deliberadamente, na manh que Allie, Karen e John passaram fazendo a mudana de Allie e de Jane para o apartamento, Connor ignorou a atividade na casa vizinha, sentado diante do computador em seu escritrio.
Usara a Internet para obter uma lista de todas as emissoras de rdio da regio nordeste, grandes o bastante para empregar algum com as qualificaes tcnicas de Jerry. Comeou pelas emissoras especializadas em msica country. Mas nessas, ningum ouvira falar em Jerry Purcell.
Ampliou a pesquisa incluindo rock, rap, jazz, msica clssica e no fim de uma semana j no podia ouvir a prpria voz dizendo: Por favor, posso falar com Jerry Purcell? Filadlfia, Trenton, Baltimore, Pittsburg...
Por que estou fazendo isso?
O clima desolado do meio do ms de maro parecia zombar de seus esforos, e quando Karen e John o convidaram para uma pizza na sexta-feira  noite, havia um vazio, apesar do tom descontrado da conversa.
Allie no estava ali. Ele ouviu um relatrio detalhado sobre ela e Jane. Ambas estavam muito bem. Allie j tinha comeado a procurar por um apartamento mais prximo. Ela tambm queria algo que fosse perto de algum parque com playground, para que pudesse levar Jane, quando ela crescesse mais um pouco.
	Mas... voc no a tem visto, Connor?  Karen perguntou, com ar perplexo.
	No. Ouvi quando ela quase afogou o motor do carro quando passou por aqui faz alguns dias  brincou ele.  Mas no a tenho visto.
	Oh, sim.
Ficou bvio que ela adoraria poder perguntar: Mas o que houve com vocs?
Em vez disso, perguntou se ele queria ler o manuscrito do livro de Nancy Sherlock, e ele aceitou. Alm da sua caa a Jerry Purcell, Connor no tinha muito com que se ocupar nas horas livres.
Talvez eu esteja errado, pensou, aps mais uma seo de telefonemas a vrias emissoras no dia seguinte. Talvez Jerry nada tivesse a ver com o que se passava dentro de Allie, e nada que pudesse descobrir sobre ele poderia ajud-la. Talvez ela de fato no estivesse a fim de um relacionamento, e realmente no achasse que a qumica entre eles contasse.
E talvez Connor at concordasse com isso, se fosse apenas uma questo de qumica, mas no era. Era muito mais do que isso. Muito mais.
Connor no conseguia mais dormir  noite, no conseguia se concentrar no trabalho. Que importncia tinha o novo jogo que estavam criando na empresa, e como o chamariam? No conseguia parar de pensar nela, somente nela, e tambm sentia falta de Jane, a garotinha que ele comeava a ter esperanas de que um dia viria a ser sua filha.
E assim, o fim de semana se foi. Na segunda-feira, durante a parada para o almoo, Connor deu mais alguns telefonemas  emissoras em Nova York. No dcimo segundo telefonema, ele por fim comeou a ver uma luz no fim do tnel.
A recepcionista lembrava de um tal Purcell t-los procurado atrs de trabalho, e deu a Connor o seu endereo. Dez minutos depois e mais dois telefonemas ele se encontrava sentado, o telefone na mo, o corao batendo em disparada e a mente rodando com a virada dos eventos.
Algo que ele no esperava ter um grande significado para Allie, mas que no tinha ainda a menor idia de como lidar.
Aluguel caro demais. Muitas escadas. Parque muito distante. Senhorio muito decrpito.
Era hora do almoo e Jane dormia.
Allie pesquisava nos classificados dos jornais, tentando encontrar um lugar adequado para morar e que fosse prximo de onde Karen morava. A pesquisa estava sendo mais difcil do que ela imaginara.
Talvez estivesse sendo exigente. Por outro lado, no pensaria em sair do apartamento onde morava se no fosse para um lugar mais adequado.
Jane no continuaria sendo um beb por muito tempo. Ela precisaria de segurana, de sol e de espao para se locomover e brincar. Precisaria de rvores e de gramado, de balanos e de escorregadores perto o bastante para que Allie a levasse a p, e perto o bastante de tia Karen e de tio John para que todos pudessem se ver pelo menos nos fins de semana.
E precisaria de um quarto com espao suficiente para duas camas, para que Hope pudesse pernoitar, sempre que fosse necessrio.
Allie esfregou os olhos ao chegar ao fim da coluna de anncios. Ela se sentia cansada, nem sempre com muita disposio. A vida de me solteira era difcil, fsica e emocionalmente, assim como a tarefa de falar aos amigos sobre seu recente passado.
Aps o choque inicial, seus amigos a apoiaram bastante, mas de algum modo no comentaram muito sobre aquilo que ela passava naquele momento. Apesar da radiante bno que era Jane, Allie algumas vezes se sentia por demais sozinha.
Algumas vezes? Seja sincera, A.J. Todd. Praticamente todo o tempo. E no queira enganar a si mesma. Voc sabe porqu.
Era Connor. Ela no esperava, no imaginava que pudesse sentir tanto a sua falta. E tambm tanta revolta e frustrao.
Homens. Por que eles no se contentavam com a amizade apenas? Por que sempre desejavam mais? E se a mulher no estava a fim de lhes dar mais, eles perdiam completamente o interesse?
Allie no tinha percebido, at Connor no estar mais por perto, que ele lhe ensinara como ser uma verdadeira me para Jane. E ela tinha de admitir, apesar da revolta, que gostaria de t-lo por perto.
Droga, Connor! Sinto muito sua falta!
Algo em que ela no se atrevia a pensar era na sugesto que ele fizera, de estar certo de que Jerry Purcell era o que arruinava o relacionamento deles.
A campainha do apartamento tocou cinco minutos depois. Allie no esperava ningum, e foi abrir a porta com uma vaga suspeita de que era Hope, que viera pegar o livro que esquecera e que precisava devolver  biblioteca.
 Connor!
Ao v-lo ali, Allie sentiu o corao disparar. No estava preparada para enfrent-lo. No fundo, queria deix-lo ali plantado e correr para o quarto, fechar a porta e as cortinas, esconder-se e impedir aquele homem de invadir seu espao, suas emoes. Mas seria grosseria. Afinal, ele s tentara ajud-la.
Como se adivinhasse seus pensamentos, ele perguntou:
	Posso entrar?
	Claro  disse ela.
Havia algo na sua atitude que a preocupou.
	Ns precisamos conversar  disse ele.  E Jane? Onde est?
	Dormindo.
	Muito bem.
Ele olhou em torno do apartamento, pequeno porm aconchegante, que via pela primeira vez.
 Aceita um caf?  ofereceu ela.
Era por demais bvio que ele tinha algo em mente, e seu primeiro instinto foi tentar tornar as coisas mais fceis para ele.
 Sim, obrigado  As duas palavras soaram automaticamente.
Ele a seguiu at a pequena cozinha e observou-a lidar com a cafeteira. Antes de lig-la, Allie precisou perguntar:
 O que houve, Connor?
Ele suspirou.
	No sei como dizer isso a voc  comeou ele a dizer.
	Assim voc est me assustando...
	No, no se assuste, Allie. Trago notcias de Jerry Purcell.
O som daquele nome a encheu de terror.
 No! No, quero ouvir! No quero saber dele!
 Ela balanava a cabea, as mos nos ouvidos.
	Mas voc precisa saber. Precisa desse confronto, Allie.  Ele se aproximou e a fez abaixar as mos.  Jamais ficar em paz consigo mesma se no fizer isso.
	Fale ento, tentarei ouvir.
	Sei que no incio eu fui egosta sobre tudo o que estava acontecendo conosco...  confessou ele.
 Estava determinado a fazer alguma coisa, qualquer coisa para ajud-la a travessar a fase difcil pela qual voc passava, mas pensando em mim mesmo, e naquilo que poderamos ter. Agora, no importa o que acontea entre ns dois, ou que no acontea, estou fazendo isso por voc. E depois do que eu soube hoje...
 Connor, pelo amor de Deus, v direto ao assunto!  Ele uniu as mos na frente do peito como se rezasse.
Connor assentiu, parecendo mais impaciente do que ela.
Eles esqueceram do caf.
	Decidi descobrir o paradeiro de Jerry Purcell  explicou ele.  E comecei contatando algumas emissoras de rdio, presumindo que ele continuasse trabalhando na mesma rea.
	E ento foi atrs dele, no foi?
	No. Eu no pude fazer isso.  As palavras dele suavizaram um pouco.  Jerry morreu, Allie, de over-dose de cocana, em Nova York, no ltimo sbado.
	Oh, meu Deus...
Com as pernas to fracas que mal a sustentavam, Allie escorregou para o cho e deixou que a notcia, as lembranas e a realidade a varressem em ondas sucessivas.
Connor abaixou-se ao seu lado, pegou sua mo e massageou-a, como fizera no lago Diamond h algumas semanas, para ativar sua circulao aps ela ter afundado no lago.
Por um longo tempo, nenhum dos dois falou, embora ela pudesse sentir a intensidade de seu olhar como um radiante raio de calor.
Connor por fim quebrou o silncio.
	Pode me dizer se errei fazendo isso? Se errei vindo lhe contar?
	No. Voc nada fez de errado.
	Era um assunto inacabado, mas que para sempre a atormentaria... Voc se mantinha dizendo, e a mim que aquilo no importava mais, que era o passado e no tinha mais qualquer poder sobre voc.
	Mas eu estava enganada  ela assentiu.  Jane preenchia grande parte da minha mente, no entanto, l no fundo havia um pesadelo, um que eu no queria admitir.
	Eu sentia isso.
	Tinha medo que ele tornasse a aparecer na minha vida, e na de Jane. Ou talvez no ele, mas o efeito daquilo que ele fez.
	Eu sei.
	E agora ele est morto...
	Sim, est... O funeral ser amanh.
	Aqui, na Filadlfia?
	Sim. Falei com sua famlia, com seus pais. Identifiquei-me como sendo amigo de um ex-colega dele na WPYR.

	Ele tinha famlia?  Ela balanou a cabea, tentando afastar a confuso.  Oh, claro que ele tinha.
	Sim, como a maioria das pessoas tm.
	Sim... Apesar dos pesares, ele era uma pessoa comum, no um monstro.
	Mas fez algo monstruoso.
	Sim, fez...  Agora era Allie que olhava fixamente para a mo dele, que apertava fortemente entre as palmas molhadas.  Mas talvez esta seja a maneira de se separar o monstro do homem. Seria certo fazer isso? Quero ir. Ao funeral. Connor, voc pode...  Ela agarrou seu brao.
	Claro  disse ele, antes que ela terminasse de perguntar.  Claro que irei com voc. Eu ia mesmo sugerir isso.
 Nos ltimos anos de vida, Jerry infelizmente se perdeu no caminho  dizia o sacerdote.  Muitos de ns, seus amigos, tentaram ajud-lo. Mas nenhum de ns conseguiu. Trisha, sua esposa, nos procurou pedindo ajuda, tentando resolver seus problemas com o lcool e com as drogas, mas ele mesmo no conseguia se ajudar. Essa  uma das coisas pelas quais hoje estamos de luto, como estamos de luto por sua perda.
Separada da famlia de seis pessoas, Allie sentava-se imvel como uma pedra, segurando na mo de Connor. Ela ainda no se apresentara  famlia de Jerry, mas planejava fazer isso aps o servio religioso.
Ali se encontravam duas pessoas vindas da WPYR, assim como outros ex-colegas de trabalho de Jerry.
O diretor da emissora, George Bennett, chamara Allie na tarde anterior quando Connor ainda se encontrava com ela em seu apartamento, para avis-la sobre a morte de Jerry. A famlia Purcel havia contatado a emissora, assim como contatara todos que, de algum modo, participaram da vida de Jerry.
O telefonema fez Connor ficar duplamente grato por ter decidido localizar o paradeiro de Jerry, e diante disso, ter recebido antes a notcia. No era arrogncia de sua parte assumir que a notcia do falecimento de Jerry, partindo dele, teria menos impacto para Allie.
Jane passaria aquela manh com Karen. Aquilo j havia sido planejado, e calhou bem diante da necessidade de Allie de atender ao funeral. Karen e John foram avisados sobre o que acontecera, embora Connor sentisse que Allie no entrara em detalhes ao dar-lhes a notcia.
Ela e Connor conversaram durante horas no dia anterior... Chegaram at a considerar a possibilidade de contar aos pais de Jerry que eles tinham mais uma neta, mas no fim, Allie optou por no contar e Connor aceitou sua deciso.
Jerry e Trisha tiveram dois filhos, um casal, de dois e de quatro anos, ambos ainda bem jovens para sentir a perda do pai. A ningum mais interessaria saber da existncia de Jane, uma prova viva da fraqueza de Jerry.
 Voc est bem?  murmurou Connor, quase no fim do servio funerrio.
 Sim, estou  Allie assentiu.  Fiz bem em ter vindo. Sinto que  como se o passado tivesse morrido com ele.
Ao fitar aqueles enormes olhos atormentados, Connor teve vontade de abra-la. Desejou embal-la, acabar com seu sofrimento, com os dedos prender as mechas de seu cabelo de volta no lugar, confessar-lhe vezes sem fim o quanto a amava, como se somente o seu amor pudesse derrotar todos os demnios contra os quais ela lutava. Mas se conteve, sabendo que naquele momento no havia mais o que pudesse oferecer-lhe.
Sua coragem o teria espantado se ele no a conhecesse to bem. Connor pensou no modo como a acusara h duas semanas na sada do restaurante. Naquela noite, ele praticamente a chamara de covarde.
Mas via agora o quanto fora injusto. Allie no era covarde. Ela simplesmente enfrentava tudo o que lhe acontecia nos ltimos dezessete meses,  sua maneira. Sendo teimosa. Persistente. Cautelosa. Focalizando-se em uma coisa de cada vez.
Primeiro, foi o estrago fsico e emocional da gravidez. Ento sua batalha pela vida, e a seguir sua batalha para aceitar o que ela ento acreditava ser o certo, que Jane pertencesse a Karen. Em seguida, no momento em que Connor entrara em sua vida, ela precisou lidar com a nova deciso que tomara sobre Jane, e aprender a ser me.
Agora ela enfrentava a etapa final, e ele se perguntava o quanto lhe custaria enfrentar tudo aquilo se ele no tivesse interferido, e se Jerry no tivesse morrido.
Mais tarde, com o passar do tempo, ele suspeitava que Allie conseguiria. Connor no podia enganar a si mesmo, quanto a ter sido uma parte vital no seu processo de recuperao.
Ele se moveu na cadeira quando uma frustrante brisa de desolao soprou sobre seu esprito. Gostava de pensar ter sido de importncia vital para que isso acontecesse. Seria muita arrogncia?
Connor Callahan, nesse momento voc no  nem mesmo um pontinho preto no horizonte emocional daquela mulher, disse a si mesmo. E no pode culp-la por isso, por no haver espao dentro dela para abrigar algo to forte quanto o que voc sente por ela. Portanto, aceite isso, prossiga com sua vida e deixe-a prosseguir com a dela.
Fcil falar.
No permaneceram muito tempo no local aps o funeral, apenas o suficiente para dirigir algumas palavras de conforto aos pais e  esposa de Jerry. Allie se apresentou como sendo uma sua ex-colega na WPYR. O fato de Jerry ter perdido o emprego na emissora devido ao uso crescente de drogas no foi mencionado.
Connor preferiu usar seu carro naquele dia, e, sentindo-se sem foras e exausta, Allie aceitou. Chegaram  casa de Karen meia hora depois.
Mal conversaram durante o trajeto de volta para casa, e Connor no insistiu. Tratando-se daquele departamento, talvez ele tenha aprendido a lio. Embora um pouco tarde, concluiu.
Olhando de lado, ele viu Allie encolhida no assento, como uma criana, usando aquele costume escuro, os joelhos pressionados contra a porta do carro.
No parecia estar muito confortvel, mas talvez nem notasse. Ela somente endireitou o corpo ao entrarem na rua onde Connor morava.
	Voc pretende tirar alguns dias para descansar?  ele quis saber.
	Sim, mas no agora. Meus pais planejam passar um temporada no Arizona, no ms que vem, e provavelmente irei visit-los... pretendo passar alguns dias com eles. Mas ainda no  certo.
 Me parece uma boa idia.
Ela ento sorriu.
 Confesso que gostaria de partir amanh mesmo, mas nem sempre  possvel. Uma viagem assim precisa ser programada, como qualquer outra coisa.
Ela tornou a sorrir ao terminar de falar. Connor sorriu de volta, embora o clima nada tivesse de hilrio. Ento fizeram silncio, at chegarem.
Karen devia estar aguardando-os, porque em seguida apareceu no porto, com Jane no colo. Allie saiu do veculo e acenou antes de se virar para Connor.
Connor a poupou do momento constrangedor.
 No diga nada, Allie, eu sei... Nos veremos por a, no ?
Ento, ele guardou as chaves do carro no bolso, e com uma das mos fez um gesto de adeus a Karen, antes de dirigir-se  entrada de casa.
Allie aproximou-se de Karen e pegou Jane de seu colo, a tempo de virar-se e v-lo abrir a porta da frente e entrar. Havia algo de adeus no seu modo de fechar a porta atrs de si. Era como se fosse uma cortina se fechando no final de uma pea de teatro.
Allie precisou esconder de Karen o desapontamento que sentiu.
Ela passou o resto do dia fazendo coisas do cotidiano. Foi ao supermercado e em seguida desceu para fazer um pouco de exerccio no ginsio do prdio. Enquanto isso, no fundo de sua mente permanecia uma inquietante sensao de que em algum ponto entre tudo o que acontecera naquela manh, nem tanto o funeral, mas durante os momentos que passara com Connor, um deles dissera algo que tinha um grande significado, algo que oferecia uma soluo para o problema que ela nunca conseguiu sequer dar um nome. Se no fosse to tarde...

CAPTULO XI

Connor franziu as sobrancelhas enquanto tomava o caf da manh. Estava com o rdio ligado, e claro que ouvia o programa matinal de A.J. Todd, na WPYR.
No entanto, era botar o p na estrada, e ir para o trabalho, que devia estar pensando em fazer. Mas... ele no estava a fim.
Uma boa coisa a respeito da Callahan Systems, era que os diretores e proprietrios da empresa, assim como seus irmos, Tom e Patrick Callahan, tinham um visionrio conceito de trabalho, no tocante a seus executivos. Por exemplo, se algum no pudesse trabalhar numa certa quinta-feira, compensaria o dia no final de semana.
Connor no tinha esperana de conseguir se concentrar no trabalho. O mximo que ele conseguiria fazer na empresa naquele dia seria se encher de caf.
Se sentia perdido,  deriva, e precisando de respostas, e isso a menos de vinte e quatro horas aps heroicamente ter decidido que, por enquanto, deixaria que Allie vivesse em paz. Pelo visto, aquilo seria para sempre.
No posso fazer isso. Pacincia no  uma das minhas virtudes. Nunca foi e jamais ser.
Tampouco era a aceitao, o auto-sacrifcio, ou a passividade.
Amo Allie. De verdade. E amor supostamente  para ser correspondido. Amor no  para ser uma emoo unilateral, que uma s pessoa sente enquanto a outra no.
Mas seja como fosse, ele nunca ouvira falar na existncia de um manual de normas sobre o assunto.
A quem ele estivera tentando enganar? Realmente acreditava que de repente a situao toda mudaria, s porque ela precisara se confrontar com o passado no funeral?
Connor sentia uma necessidade urgente de agir, fazer alguma coisa, e a nica coisa que conseguia pensar em fazer era no mnimo conversar. Com a irm de Allie, por exemplo, que naquele momento parecia ser sua melhor opo, j que se encontrava convenientemente bem na porta ao lado.
Connor despejou o restante do caf dentro da pia e dirigiu-se  casa vizinha. Foi recebido com trs coisas que achou surpreendentes: a primeira delas foi a voz de Allie soando no rdio.
Karen ouvia a mesma estao. A segunda, era Jane, a filha de Allie, cantarolando em seu cadeiro, embora sua voz no fosse to melodiosa quanto a da sua me. A terceira era ter surpreendido Karen com um pedao de papel na mo, que parecia ser uma lista das compras que ela precisaria fazer.
Ela contou que tinha um novo livro infantil para ilustrar, e estava cheia de energia, e Connor precisou apenas dar uma olhada nela para se contagiar.
Foi ento que se ofereceu para cuidar de Jane, a filha de Allie.
	Voc faria isso por mim?  disse Karen, ajeitando uma mecha dos cabelos castanho-dourados atrs da orelha.  Na certa ela vai preferir ficar com voc. Ser apenas por uma hora, ou talvez um pouco mais. Allie vir apanh-la aps o programa.  Ela sorriu.  Tem certeza de que no estou explorando-o, Connor?
	Ei, eu tenho sobrinhas, duas... E tambm costumo cuidar delas para que suas mes possam dar conta de seus afazeres...  Ele jamais admitiria que o fato de estar cuidando de Jane, o fazia sentir-se perto de Allie em esprito, e por isso, era mais provvel que ele a explorasse.
Karen no tinha mais aquele brilho casamenteiro no olhar, que costumava ter h duas semanas, mas provavelmente no demoraria muito para reacend-lo.
No silncio incomum que se instalou na casa quando ela se foi, Connor teve tempo apenas para tentar adivinhar o que acontecera com o rdio, quando percebeu que era apenas um hiato normal, que ocorria sempre que uma msica terminava. Ento, Allie tornou a falar.
Sentada no cadeiro, Jane comeou a balanar o corpo, para frente e para trs, entusiasmada com a voz da me. Aquilo o surpreendeu.
 Voc gosta de ouvir a voz da sua me, no , Jane? Eu tambm gosto, muito  disse ele, suavemente.  Mas diferente de mim, voc no precisa tentar adivinhar que diabos de atitude precisar tomar a esse respeito.
 Ligue para ns, estamos esperando...  dizia A.J. Todd, como se ela tivesse ouvido.  Entre em contato conosco atravs do telefone, do fax e por e-mail. E faa seu pedido, que logo atenderemos.
Ela deu o nmero do telefone, e antes que Connor desse a si mesmo um momento para parar e pensar, ele se viu discando o nmero, puramente porque, de algum modo, ele precisava contat-la.
Sua ligao seria passada para o estdio, avisou a telefonista. Ele aguardou, ento, em seguida ouviu a voz de Allie saud-lo, e um segundo depois ele estava no ar.
E ar tambm era a nica coisa saindo de sua boca. Com certeza dela no saa som algum, menos ainda algo coerente como o nome de uma msica.
	Gosto de ouvir seu programa, A.J.  ele falou por fim, em uma voz que no parecia ser a dele.  Sou um ouvinte antigo, mas  a primeira vez que ligo...
	Uh-huh  respondeu ela brilhantemente.  Voc  daqui mesmo, da Filadlfia?
Ele acertou quando imaginou que ela no reconheceria sua voz. Allie soava ligeiramente mecnica, e no parecia to confiante como normalmente no ar naquela manh? Estaria ela to inquieta quanto ele estava?
 Sim, sou...  continuou ele. No era surpresa alguma ela no t-lo reconhecido. Algo parecia fechar sua garganta, algo que era do tamanho de uma melancia.
	Posso saber com quem estou falando?  pediu ela, de um modo encorajador. Pelo visto ela estava acostumada a lidar com pessoas que emudeciam ao vivo.
	Uh... Connor  disse ele.
	Connor.  Ela soou diferente agora, mas como se ainda no tivesse certeza, ou no estivesse preparada para demonstrar isso.
Connor praguejou contra si mesmo. Por que bancava o tolo fazendo aquilo? S para perturb-la no meio de um programa ao vivo? Na certa ela ficaria muito grata, tanto que at se atiraria em seus braos.
	Esse  um nome que ultimamente tenho ouvido muito falar  continuou ela, com cautela.  Tem um pedido a nos fazer, Connor?
	Oh, sim, eu...
Um pedido! E ele estava no ar! Connor era um antigo f da msica country, e todas as msicas country que ele costumava ouvir quase que diariamente, ttulo e nome da cantora, de repente haviam sumido de sua mente.
Ele hesitou pelo que lhe pareceu como sendo uma eternidade e por fim saiu com essa:
 Uh, que tal... O Que Devo Esperar De Voc?do Faith Hill?
O nome daquela msica era como um grito sado do seu corao, da parte mais impaciente dele, a parte que tinha de agir, no simplesmente sentar e esperar. Ele tentou adivinhar se Allie o reconhecera agora, reconhecera sua voz. Como ela no era nenhuma estpida, provavelmente reconhecera. Como reagiria?
 Faith Hill. "O Que Devo Esperar de Voc", Allie repetiu, meio sufocada de repente, como se uma mo tivesse vindo apertar sua garganta. Ela no tinha mais dvidas sobre quem era o seu "antigo f", e que pela primeira vez ligava.   uma linda msica, Connor.
Allie abraou a si mesma, no encontrando conforto nem no seu aconchegante suter azul. Ento ele decidiu fazer a grande pergunta no ar? Muito esperto. Injusto, porm esperto.
Enquanto Allie fazia um intervalo para informar as condies do tempo, Charlene localizava a cano que Connor pedia. Era a primeira trilha no lbum do Faith Hill, chamado "Breathe".
Breathe. Respirar. Era exatamente daquilo que ela estava precisando, pensou ao soar das primeiras notas da cano.
Respirou fundo e recostou-se, sentindo-se a salvo, pelo menos por cinco minutos e trinta segundos, a durao da cano. Tentou relaxar a garganta.
No incio ela no reconheceu a voz, embora no soasse to diferente do normal... Mas talvez porque fosse a ltima voz que ela esperava ouvir.
E ento, aquele pedido. Ele soou como se no conseguisse falar, lembrar o nome de nenhuma cano para pedir, e ento disse o nome da primeira msica que lhe veio  mente. No entanto, aps pensar melhor, enquanto ouvia as batidas do rock melodioso e os acordes de um violino, seguidos pela rica voz do solista do Faith Hill, Allie comeou a entender o profundo significado que havia em cada verso.
O Que Devo Esperar de Voc?
Estaria ele lhe dando uma ltima chance de responder aquela pergunta? Alm de todos os altos e baixos, o que havia para ele? Allie teria a resposta que ele desejava?
A msica sempre fora como um poderoso gatilho emocional para Allie, e naquele instante no era diferente. No incio ela precisou lutar contra as lgrimas e ento, de repente, houve a revelao.
Exatamente o qu, dissera a ele no dia anterior? Falara sobre as frias que planejava tirar com os pais no Arizona, dissera algo sobre uma pessoa nem sempre ser capaz de tomar a atitude certa quando isso era conveniente.
Mas  exatamente isso o que venho tentando fazer, concluiu ela. Curar minhas feridas, fazer uma faxina nas minhas emoes, antes de comear a pensar na possibilidade de me envolver? Isso  errado? Algumas vezes, a vida no nos d o luxo de um timing conveniente. Mas se eu o quero... se o amo... oh, e o amo, de todo o corao... preciso dele. S que, at agora, eu no tinha entendido isso.
Naquele momento, quando a msica terminou, e ela precisou falar com seus ouvintes, usando sua voz rouca e sensual, sobre o que aconteceria a seguir, e quais os prmios que os ouvintes que respondessem algo sobre uma certa banda de rock receberiam.
Prmios? Esqueam os prmios!
 Obrigada por tudo, Connor...  disse ela. Podia v-lo enquanto agradecia. Podia ver sua boca pronta para beij-la, seus olhos como duas poas d'gua escuras  noite, e refletindo o azul na neve do lago Diamond. Podia ver as caretas que fazia para Jane, e a expresso concentrada que fazia ao telefone, sempre que falava sobre a empresa com um de seus irmos.  Desde a primeira vez que a ouvi, passei a amar esta cano  continuou ela.  Mas... por alguma razo, esta manh, ouvi muito mais em seus versos. Que tal agora tocarmos mais uma faixa do mesmo lbum, Breathe? Mais uma de minhas favoritas. Esse  o Meu Jeito de Amar. Quando a msica terminou ela disse:
	Obrigado por ter escolhido algo desse lbum, Connor. Nele h msicas belssimas. E tenho a impresso que, de um modo ou de outro, essas duas msicas em particular, ainda tero um grande significado em minha vida.
	Allie, diabos, o que h com voc? Por que ficou assim? Por que est to triste?  murmurou Connor aps ter desligado.  Eu no queria isso.
Sua voz soava sufocada, trmula, como se ela estivesse prestes a chorar. A sensualidade, que normalmente soava como se ela estivesse partilhando de uma piada particular e maliciosa com cada um de seus ouvintes havia desaparecido.
A.J. Todd do rdio no responderia para ele. A nica pessoa que faria isso era Allie, ao vivo, cara a cara.
Ele estava por demais impaciente para esperar at o fim do programa, por isso pegaria o carro e se dirigiria  emissora. Alm disso, tinha receio de que ela fosse estar muito zangada quando chegasse em casa. Seria mais fcil conversarem longe dali.
Tirou Jane do cadeiro e colocou-a no carrinho. No querendo arriscar, embora no pretendesse demorar, pegou a sacola com as fraldas descartveis, e saiu para pegar o carro empurrando o carrinho de Jane.
Estava prestes a trancar a porta da casa de Karen, e ele no tinha a chave, quando lembrou que no tinha como levar Jane, j que no havia como acomod-la no seu carro. Connor praguejou baixinho.
Devia haver um assento infantil na garagem, o mesmo que Karen usava no seu carro. Procurou na garagem, no poro, at que finalmente o encontrou.
Dirigiu atravs das ruas empoadas que se tornavam mais escorregadias a cada minuto, a neve comeava a se acumular nas caladas. Ele estacionou perto da WPYR exatamente trs minutos aps o programa de Allie ter sado do ar.
Allie o avistou antes mesmo que ele a visse, ao sair do edifcio usando seu casaco escuro e com a gola levantada para se proteger do frio. Ela sentiu a esperana renascer, e o corao bater na garganta.
Ele estava com Jane no colo, e naquele momento puxava o gorro de l at seus olhos. Em seguida puxou o zper de seu casaco at o pescoo. A neve j comeava a se acumular em suas roupas.
O que os dois faziam ali? Pelo que Allie sabia, Jane devia estar com Karen e Connor devia estar trabalhando. Julgava que ele houvesse ligado da empresa. Vendo-os ali, Allie sentiu-se incrivelmente nervosa. No sabia se havia interpretado direito o significado da msica. Era como se os flocos de neve caindo em torno dela, girassem dentro de seu estmago.
Naquele momento ele a viu. Porm no se aproximou, apenas ficou onde estava, perto do carro, esperando e observando enquanto ela se aproximava, o rosto srio e a boca expressiva contrada.
Allie mal continha a agitao, e procurava a todo custo conter o nervosismo, manter o controle sobre as prprias emoes ao caminhar na direo dele.
Quando ela se aproximou o suficiente, eles apenas disseram, meio hesitantes, como dois adolescentes:
 Oi.
Jane estendeu-lhe os braos, sorrindo. As mangas de seu casaco eram compridas e apenas a ponta de seus dedos eram visveis.
	O que... o que ns dissemos um ao outro, Connor?  perguntou ela, tentando sorrir, como se aquilo fosse uma piada, embora ambos soubessem que no era.  No estou bem certa.
	Tambm no estou. Por isso vim at aqui, para esclarecer de vez esse assunto. No planejei isso, Allie  explicou ele.  Apenas aconteceu. Estava tomando conta de Jane enquanto Karen saiu para fazer compras. Liguei para a emissora por um impulso, e ento, aquela msica veio  minha mente. E combinava tanto. Todos aqueles altos e baixos...
	Tambm achei que combinava  concordou ela.  E foi assustador! Como pude no entender? Ento comecei a pensar. "O Que Devo Esperar de Voc?" Talvez aquilo fosse um beijo de despedida, no um grito do corao. Mas pude perceber que voc tambm no estava certo.
	Por isso eu vim diretamente para c, para que pudssemos conversar, cara a cara. Na verdade, eu tinha certeza de que voc tambm queria fazer isso, querida.
 Oh, Connor...
Ele estendeu os braos para ela, justamente como Jane fizera, e os trs abraaram-se, com a neve caindo sobre eles como uma bno.
 Eu te amo, Allie  Connor confessou, antes de capturar-lhe a boca com a dele, apaixonadamente.
 Eu disse isso antes, mais de uma vez, mas voc no entendeu.
Allie aconchegou-se mais a ele, sentindo sua fora esgotar-se, e seu corpo derreter-se no dele.
	Fiquei preocupado com voc, com o modo como sua voz soava no rdio...  continuou ele.
	Eu sei. Meu produtor tambm ficou  concordou ela, recostando a cabea em seu ombro e sentindo-o beijar seus cabelos.  Esse no foi um dos meus melhores dias.
	Estava desesperado, sem saber o que fazer. Tudo o que conseguia pensar  que talvez voc se importasse. Estou certo? Diga que voc se importa.

	Ele pegou seu queixo com a ponta dos dedos e a fez levantar a cabea, tentando ler sua expresso.
	Diga que agora voc est pronta. E o que devo esperar de voc, Allie.
 Tudo o que desejar... tudo que sou capaz de dar  sussurrou ela, a voz to baixa que ele precisou encostar o rosto no dela para ouvir.  Parece que as coisas esto mudando rapidamente dentro de mim... Parece que a cada dia que passa eu tenho mais para dar a voc.
Ela nada mais disse, no tentou explicar, apenas enterrou o rosto no ombro de seu casaco. Ento estendeu a mo e puxou seu rosto para perto do dela.
Connor no parecia fazer questo de mais explicaes. No ainda. Sua boca moveu-se vida sobre a dela, saboreando-a triunfante, e com uma possessividade que fazia sua cabea rodar. Um floco de neve pousou sobre suas pestanas espessas e ele o tirou dali com a ponta da lngua.
Um outro pousou no canto da boca de Connor e ela tirou-o dali com um beijo, sentindo o minsculo pedao de gelo derreter em seus lbios.
Por fim ele ordenou:
	Fale, Allie, antes que Jane se inquiete neste frio. Quero ouvir tudo o que tem a dizer.
	Eu te amo, Connor, te amo muito.
	Eu sei. Ah, Allie, eu sei que voc me ama, mas  to bom ouvi-la confessar isso. Por que no fez isso antes? Como pde fugir desse amor? Foi por causa de Jerry?
	Mais ou menos isso...  Franzindo as sobrancelhas, ela tocou seu rosto com a ponta do dedo, traando aquelas feies que tanto amava.  Embora no seja to simples.
	Conte-me  Ele capturou seu dedo com a boca, beijou-o e repetiu:  Voc precisa me dizer, para que eu possa entender. Precisamos acabar com todas as dvidas.
	Eu me sentia esmagada...  Allie suspirou e procurou pelas palavras certas.  No  uma grande metfora, mas... mas era como se o meu emocional estivesse transbordando, com tantas coisas importantes acumuladas, e nele no houvesse espao para voc. Era como se eu precisasse limpar tudo primeiro e recomear do nada.
	 uma boa metfora  disse ele.
	Ento, entendi que a cura no tinha uma faixa de horrio para acontecer na vida de uma pessoa, ou que aconteceria quando fosse mais conveniente. Durante toda a noite isso me atormentou. Eu entendia, mas no conseguia enxergar, voc entende? E esta manh, quando voc telefonou para a emissora eu decidi. Para o diabo com a vez e a hora!  neste momento que voc se encontra em minha vida, que nos apaixonamos, que ficamos totalmente apaixonados, e eu tenho apenas que encaixar isso dentro da equao.
	Voc quer dizer, naquele compartimento cheio?
	Seja l o que for.  Ela acenou com a mo.  E tratar disso agora. Faz sentido para voc?  Ela segurou seu rosto com as mos em concha e analisou sua expresso. Jane fazia o mesmo com ela, agarrando sua orelha.
	Todo o sentido do mundo, Allie. No sei porque isso no me ocorreu antes, h cerca de quatro semanas. Poderia t-la convencido disso e nos poupado de muitos transtornos, de muito sofrimento.
	Isso  outra coisa que venho dizendo a mim mesma nesses ltimos meses, sempre que penso no tempo que perdi estando afastada de Jane. Mas conclu que as coisas aconteceram como deveriam acontecer.  tudo. No faz sentido ficar se arrependendo. Agora eu me recuso a lidar com o lado negativo das coisas.
	Eu sei, e digo o mesmo. Agora somos s ns, eu, voc, e Jane, e tudo o que teremos juntos.
	Mas receio que no ser sempre assim... Pode ser que haja problemas...  ela interrompeu o que dizia.
	Certo, poderemos ter problemas  concordou Connor, abraando-a com mais fora.  Mas quem no os tem? Eles so inevitveis, mas quando surgirem, saberemos como lidar com eles. No  o que estamos fazendo, desde o incio? No nos samos bem quando Karen atolou naquela tempestade, deixando voc com Jane? No lidamos bem com o acidente, quando voc quase se afogou no lago, quando por fim entendeu que queria Jane ao seu lado... para sempre? Mas agora no vamos mais pensar em problemas. Tenho outras coisas em mente.
	No que  que voc est pensando, Connor Callahan?  Allie sorriu. Sentia-se como se tivesse acabado de entrar em um mundo novo.
	Na verdade, estou pensando em Brady e em Savannah  confessou ele. Havia um brilho novo em seus olhos azuis e um tom sedutor em sua voz.
	Brady e...
	O livro de Nancy Sherlock. Karen me deu o manuscrito pra ler. O devorei no ltimo fim de semana.
	Sei quem so. Estava pensando em como eles dois se encaixam nisso.

	Estamos parados aqui na neve justamente como Brady e Savannah aparecem na capa do livro. E acho que ns devemos muito aqueles dois determinados personagens. E tambm  pequena Will  acrescentou ele, apertando suavemente o ombro de Jane.
	Presumo que sim.
Jane parecia adorar estar ali, aconchegada entre os dois. Olhava de um para o outro, enquanto Allie e Connor se abraavam ternamente.
	Lembra-se do que Karen nos disse a respeito do final do livro?  Connor perguntou.
	No. O que foi que ela disse?  Allie sussurrou, embora a lembrana tivesse surgido em sua mente como em um flash.
	Bem, depois de tudo esclarecido, o delegado acabou casando-os, embora estivesse seriamente ferido.
	Ento, houve um final feliz?
	Sim, acabou com o casamento dos dois.
	Que bom. Fico aliviada  murmurou ela, os lbios suaves e sedutores contra sua boca.
	Isso  sim? Voc aceita casar comigo?
	Sim... definitivamente.
	Podemos morar na minha casa? L h espao suficiente para, pelo menos, mais trs filhos.
	Eu adoro a sua casa.
	Mas aps se casarem...  continuou ele, aps uma considervel pausa, retomando ao livro.  ...o substituto chegou para levar o delegado ferido embora, conduzindo-o em uma maca improvisada atravs da neve...
	Foi quando ento, Brady e Savannah por fim ficaram a ss  acrescentou Allie, suavemente.
	Esperaram por isso por tanto tempo que mal tiveram tempo de chegar  cabana. Will estava dormindo em seu pequeno bero de madeira. Brady a conduziu at a porta do quarto. E ento...
	E ento...  apontou ela.  Voc no lembra? Eles fecharam a porta do quarto.
	Eu sei... Fecharam a porta do quarto e acabou. Foi o melhor momento do livro. O poder da nossa imaginao  uma coisa inacreditvel. E tudo o que quero agora ...
	Voc poder fechar a porta do quarto quando quiser, Connor Callahan  sussurrou Allie, antecipando-se  pergunta dele.  A qualquer hora, do dia e da noite...
	 exatamente o que eu esperava ouvir.
